Livro conta a história do samba-rock e do suíngue... gaúchos!

Não é erro de digitação. Autor defende que sons feitos em Porto Alegre desembocaram na mistura sonora do Rio e de SP

Por O Dia

Rio - Gaúcho de Porto Alegre, Mateus Berger Kuschick divide seu tempo entre a pesquisa científica na área musical e o próprio trabalho como músico - é flautista das bandas Funkalister e Relógios de Frederico. O encontro entres os dois lados complementares acaba de render o livro 'Suíngue, Samba-Rock e Balanço - Músicos, Desafios e Cenários' (Ed. Medianiz, pg. 215, R$ 38). Escrito originalmente como dissertação de mestrado do Programa de Pós-Graduação em Música da Universidade Federal do Rio Grande do Sul em 2011, ele traz à tona o pouco comentado e historiado lado 'black' da música sulista.

Capa do livro 'Suingue, samba-rock e balanço'Divulgação

"Eu toco em naipe de sopros, e já atuei em bandas de rock, MPB, funk... Ouvi sempre alguns músicos de Porto Alegre falando do jeito desse pessoal de tocar, que é diferente. Uma divisão rítmica que difere da de São Paulo, da Bahia, do Rio, que segue para outro caminho na percussão. Não conhecia muito isso e fui pesquisar", diz Mateus, que usa o codinome Mateus Mapa para suas aventuras musicais.

A redescoberta do pouco citado carnaval gaúcho (com escolas de samba como a Acadêmicos da Orgia) foi saltando aos olhos do músico-pesquisador ao longo do trabalho. "Tem uma cena que corre por trás, e que inclui até instrumentos de percussão que só existem aqui, como o sopapo, um tamborzão enorme feito com couro de cavalo", recorda Mateus. "Uma grande descoberta para o Brasil é o fato de, apesar de o Sul ser geralmente associado a uma coisa loura-de-olhos-azuis, alemã, é aqui que há mais clubes negros cadastrados no Brasil. São 55! Vi muitas coisas que contrariam esse estereótipo ao qual geralmente o Rio Grande do Sul é associado".

Entre os suingueiros do Rio Grande do Sul, nascidos de uma junção que inclui gêneros como o rock do anos 50-60 e a batida do samba, estão nomes como o guitarrista, cantor e compositor Luis Vagner, o grupo Pau Brasil (que teve um homônimo, mais jazzístico, em São Paulo), e o compositor Bedeu. Uma geração que frutificou em São Paulo (o suingueiro Bebeto), Rio (nomes como Rogê, Márcio Local e Seu Jorge) e, no Sul mesmo, rendeu filhotes como a banda Ultramen, sucesso local nos anos 90, que alcançou as rádios do Brasil inteiro com músicas como 'Dívida'.

"Os músicos do Sul rodaram o Brasil e tiveram contato com muita gente. E já eram reconhecidos. O Nego Luiz, do Pau Brasil, estava num bar em São Paulo, sentado ao lado do Adoniran Barbosa, e pediu um martelinho (copo pequeno) de cachaça. Adoniran se aproximou e falou: 'Você é gaúcho, né? Gaúcho é que tem essa mania de pedir um copo de cachaça e dar só um golinho...", brinca Mateus. Vários desses músicos gravaram álbuns nos anos 70 por gravadoras brasileiras de grande porte, como a Copacabana e a Continental. E ganharam rótulos nada honrosos, como os de "imitadores de Jorge Ben Jor". Um fantasma que assombra até hoje Bebeto, um dos maiores divulgadores desses compositores ('Segura a Nega', um de seus primeiros hits, é parceria de Bedeu e Luis Vagner).

Luis Vagner, por sinal, foi baixista da Banda do Zé Pretinho, de Jorge - chegou a ganhar dele a canção-homenagem 'Luis Vagner Guitarreiro'. Mantém prolífica carreira como compositor desde os anos 60, iniciando como músico da Jovem Guarda gaúcha (na banda Os Brasas) e prosseguindo para uma carreira solo regada a soul, funk, samba-rock, samba (em 1974, em parceria com Hélio Matheus, compôs o hit 'Camisa 10', gravado por Luiz Américo) e reggae, com projeção nacional modesta e shows fora do Brasil. Prepara hoje o disco 'Samba, Rock, Reggae, Ritmos em Blues e outras milongas mais'.

"É uma coisa até meio injusta. Há quem diga que o Jorge só se tornou guitarrista após conhecer o Luis. Tive a oportunidade de ir a um show do Ben Jor com ele. Eles se encontraram ao final, se abraçaram. Eles haviam sido amigos muito próximos, viajaram o Brasil inteiro", recorda, mapeando as diferenças entre os trabalhos. "O Jorge tem sua alquimia para compor as músicas. O Luis dá muito valor às linhas de baixo e à célula rítmica do pandeiro. E deixa espaço para improvisos à guitarra". Para chegar ao resultado do livro, Mateus chegou a 328 álbuns e 152 artistas diferentes, todos catalogados no livro. "De 2009 a 2011, quando fiz a pesquisa, era fácil achar certos discos para download".

Após descobrir tudo sobre suíngue e samba-rock, Mateus pesquisa agora os paralelos entre o semba angolano e o samba brasileiro. "Quero reconstituir a famosa viagem que artistas brasileiros fizeram para Angola nos anos 80, entre eles Martinho da Vila. Consegui conversar bastante com o (jornalista) Fernando Faro, que foi o chefe dessa delegação", recorda.

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