Por lucas.cardoso
Rio - Se hoje funk, soul e R&B convivem com a música brasileira em inúmeras festas no Rio, da Zona Sul a Zona Norte, isso se deve à movimentação que, em 1976, a partir de uma reportagem do antigo ‘Jornal do Brasil’, ganhou o nome ‘Black Rio’. Eram “mais de um milhão” — dizia o texto original, da jornalista Lena Frias — de moças e rapazes que iam aos bailes de subúrbio dançar ao som de equipes de som como Soul Grand Prix e Cash Box. Um período cuja história é detalhada por Zé Octávio Sebadelhe e Luiz Felipe de Lima Peixoto no livro ‘1976 — Movimento Black Rio’ (Ed. José Olympio, 257 págs., R$ 59,90).
O baile da Soul Grand Prix nos anos 1970Almir Veiga / Acervo JB

O livro resgata a sequência de fotos feitas por Almir Veiga para a reportagem original de Lena. “Trabalhei no ‘Jornal do Brasil’ e achei essas fotos. Logo vi que aquilo daria uma exposição. São 80 imagens e nenhuma delas é descartável”, lembra Zé Octávio, que fez a mostra do Black Rio em junho no Teatro Odisseia. O ano de 1976 gerou o nome do movimento (e a criação da Banda Black Rio, que existe até hoje), mas a afirmação da cultura negra no Brasil vem de antes, com a chegada de artistas como Tony Tornado, Wilson Simonal, Gerson ‘King’ Combo, além de radialistas e DJs como Ademir Lemos e Big Boy. E ativistas como Asfilófio de Oliveira, o Filó, que transitava entre os universos do soul e do samba. Hoje, Filó é vice-presidente social do Renascença Clube.

“Houve muita paranoia do governo militar em relação aos blacks. E o movimento tomou porrada da direita, da esquerda... O ‘Fantástico’ chegou a fazer uma reportagem soul versus samba”, conta Zé Octávio. “A própria Lena Frias não era uma pessoa do soul. Era ligada ao Clube do Samba, do João Nogueira, e tinha um discurso de afirmação da cultura nacional. Mas viu que havia uma pauta ali”.
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Zé Octávio sonha com a ideia de lançar uma edição do livro com capa dura e fotos maiores. “Mas optamos por fazer algo mais popular agora”, diz.