João Pimentel: Acabar o Barbas, nem de brincadeira

O Barbas virou um bloco da comunidade, e teve uma identificação imediata com os moradores

Por O Dia

Rio - Saideira e pendura são as palavras mais recorrentes dos sambas do Barbas, bloco que, juntamente com o Simpatia É Quase Amor, foi pioneiro da revitalização do Carnaval de rua na Zona Sul. Mas, além dos 30 Carnavais comemorados este ano, pouca coisa os dois têm em comum. O Barbas nasceu de um bar na Rua Álvaro Ramos, em Botafogo, onde se reunia a turma que lutou pela anistia, pela redemocratização do país, intelectuais, jogadores de futebol como Jairzinho, Afonsinho, Delei e, claro, a turma da música. De Chico Buarque a Noca da Portela; de Beth Carvalho a Jovelina Pérola Negra.

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Cinco barbudos administravam o Barbas de forma romântica. No primeiro andar funcionava o bar. Já o segundo era usado para shows, lançamentos de discos, livros e reuniões políticas. Sabe­se lá como o bar sobreviveu de 1981 a 1989. O certo é que certo dia chegou uma ordem de despejo. É claro que terminou em samba. Um trio da pesada, Mauro Duarte, o Bolacha, sambista do primeiro escalão, Cristina Buarque e Lefê Almeida, apelou de forma poética:

“Acabar o Barbas, nem de brincadeira/ Como é que eu vou viver sem pendura e saideira?/ Ô seu juiz, ô seu juiz/ Senta um bocadinho, bebe um chope e pede bis.”
Ninguém sabe se o juiz gostou da brincadeira, se bebeu o tal chope, mas as portas se fecharam. O que não impediu o Barbas de continuar sua trajetória de luta e inventividade nas ruas.

Mauro Duarte, Walter Alfaiate, Zorba Devagar, Mical, compositores do bairro, que já foi um dos maiores redutos do samba carioca, uniram forças com Nelsinho Rodrigues, Manoel Henrique, Tchetcha, Dado e Mario Rodrigues, os tais barbudos, com intuito de reviver os Carnavais de blocos como os Foliões, Paraíso das Cabrochas e Funil. Conseguiram. Com as cores vermelha e branca, o Barbas virou um bloco da comunidade, e teve uma identificação imediata com os moradores, coisa que os outros blocos só conseguiram depois de muitos anos de desfile.

O Barbas nasceu com algumas marcas registradas como o carro­pipa, ideia emprestada de um filme do irmão de Nelsinho, Jofre, que para criar uma grande chuva recorreu ao veículo. A chuva do Barbas já lavou a alma de muita gente. E muito marmanjo de hoje já desfilou no carro­creche, a solução encontrada na época para que os pais brincassem com seus filhos em segurança.
Irreverente, libertário e sem nada a esconder, o bloco já tem enredo para este Carnaval: ‘Barbas 30 anos, uma biografia não autorizada’. Procure saber!

Há uma semana o bloco perdeu um de seus fundadores e o Brasil um de seus filhos mais corajosos. Manoel Henrique Ferreira, o sobrevivente dos porões da ditadura que denunciou em carta, ao então arcebispo de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns, a tortura e o violento processo de cooptação que enfrentou para tornar­se um “arrependido político” durante a ditadura.

Pessoa doce, generosa e muito querida por todos, Manoel era a cara do bloco. Mas para esta turma, Carnaval não tem saideira. E a comunidade barbense este ano vai misturar sua alegria com as inevitáveis lágrimas que vão se diluir na chuva do pipa.

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