Por paulo.gomes

Rio - Assistir do alto, no confortável camarote da Beija-flor e com uma visão privilegiada da Passarela do Samba, não era o suficiente para Teodoro Obiang Nguema Mbasogo, ditador da africana Guiné Equatorial, país que comanda com mão de ferro há 35 anos. Obiang queria ficar mais perto para assistir ao desfile da escola que contratou para homenagear seu país ao custo de R$ 10 milhões.

Além das belezas naturais, cantadas pela agremiação de Nilópolis na segunda-feira, há muita pobreza em Guiné, também. O país ocupa a 144º posição de 187, no ranking de Desenvolvimento Humano da ONU.

Obiang (de preto) não se incomodou com a recusa nas frisas%3A filmou e brincou no camorote da Beija-FlorMaíra Coelho / Agência O Dia

Frustrou-se Obiang. Acostumado a ter as vontades atendidas, o ditador tentou descer para as frisas. Queria ocupar, com sua comitiva, os lugares abaixo do camarote Beija-Flor, de onde assistia aos desfiles. Não conseguiu.

Tentou, primeiro, os funcionários responsáveis pelo controle de acesso das frisas. Em vão. Informaram-lhe que não seria mais possível. Nem ingresso havia mais. Depois, quis que chamassem os ocupantes. Representantes de pelo menos três frisas foram chamados.

Um deles, o taxista Cléber Eduardo da Silva, 33 anos, afirmou que não lhe ofereceram um valor específico. “Disseram que pagariam o que quiséssemos”, contou. “Mas não quisemos levar adiante a conversa, porque achamos um absurdo o que ele faz na Guiné, um local pobre. Em vez de investir para melhorar a vida do povo, gasta aqui”, criticou.

Outra, que preferiu não se identificar, revelou que lhe ofereceram dobrar o valor de cada lugar. Na frisa dela, cada um pagou aproximadamente R$ 1.700. Ouviu, dela, outro não.

Protesto

O interesse era porque a comitiva, com 30 pessoas, queria ficar a menos de um metro da pista. “Podem comprar o que quiserem, mas, de mim, ouviram ‘não’”, orgulhou-se a mulher. “Foi a minha forma de protestar.”

A rejeição dos brasileiros, se o incomodou, logo passou. Obiang parecia encantado, com o desfile. Pegava o celular para filmar e comentava algo com as mulheres — mais altas — à sua volta.

De terno preto e gravata vermelha, usava os dedos para batucar. Menos contido, o filho, Teodorín, chamado de vice-presidente, apontava às mulheres tudo o que via, enquanto a agremiação de Nilópolis desfilava. Vestia uma bata azulada. Ao fim do desfile, o grupo pulava e aplaudia empolgado.

'Não fazemos política', diz Anísio Abraão David

Último remanescente da velha-guarda da contravenção no Carnaval, Aniz Abraão David, o Anísio, fez questão de desfilar pela Beija-Flor para mostrar que o rei pode andar com dificuldades, mas não está morto. Numa cadeira de rodas elétrica para ajudá-lo na locomoção — prejudicada por recente cirurgia no joelho —, o bicheiro foi o antônimo do colega do jogo Rogério de Andrade, da Mocidade Independente.

Discreto e sem o exército de seguranças exibido pelo chefão de Padre Miguel no domingo, Anísio foi reverenciado pelo público nos setores populares, percorreu a escola inteira na concentração e posou para fotos com políticos e artistas no tradicional beija-mão.

A ironia e acidez dos velhos tempos ficaram restritas às explicação do enredo da Beija-Flor, patrocinado pelo ditador da Guiné Equatorial, Teodoro Obiang. “Teve escola (Vila Isabel) que falou sobre a Venezuela e ninguém falou nada. Não fazemos política, fazemos Carnaval”, disparou o bicheiro, já na dispersão, quase explodindo ao ver a escola ser obrigada a correr para não estourar o tempo de desfile.

Foram dois anos assistindo ao desfile pela TV. “É difícil. Não é igual a acompanhar daqui (Avenida). Este é o meu grande amor, é como a minha família”, explica um até emocionado Anísio, para completar que o problema no joelho restringiu sua ida até a quadra da Beija-Flor para acompanhar os ensaios.

Chegou a imaginar ficar ausente mais uma vez, mas a família improvisou um andador e a cadeira de rodas. Com os problema de saúde, Anísio, aos 77 anos, confessou aos amigos que iria de qualquer forma ao Sambódromo.

Nem o quesito corpo de jurados tirou seu ânimo. “São pessoas idôneas. O povo é que fica com história”, anunciou, diante do questionamento dos receios de um suposto compra de resultados por escolas adversárias. (Reportagem João Antonio Barros)

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