Antes de ser Neguinho da Beija-Flor, cantor era chamado de Neguinho da Vala

Intérprete conta que recebeu o nome artístico após uma composição sua ajudar a escola a conquistar seu primeiro título

Por O Dia

Rio - Os tamborins já ecoam no barracão, ensaiando o novo enredo sobre o Marquês de Sapucaí, enquanto, no camarim, Luiz Antônio Feliciano Marcondes parece político em época de eleição. É abraço para cá, beijo para lá, e ‘olha o Neguinho da Beija-Flor aí, gente’. A popularidade tem raízes antigas. Antes de subir ao palco para gravar o samba da escola que permanece fiel há 40 Carnavais, ele lembra que foi também há exatas quatro décadas que uma composição sua se classificou, ajudando a conquistar o primeiro título da Azul e Branca — hoje com 13 troféus.

“Foi aí que o Neguinho da Vala (apelido antes do nome artístico) se tornou o Neguinho da Beija-Flor”, conta o cantor, que se gaba por ser um dos únicos intérpretes não remunerados das escolas de samba. “Olha, o que a Beija-Flor me proporcionou de notoriedade, de viajar pelo mundo... Nossa!”, exclama. “Mal ou bem, uma vez por ano todo mundo tem que me ouvir na Avenida”, entrega a principal fórmula para se manter na mídia.

Ao centro%2C Neguinho da Beija-Flor%2C ao lado da passista Nilce Mel e de componentes da bateriaRodrigo Mesquita

Com shows marcados, na Holanda, Bélgica, Dinamarca e Suécia, assim que o Carnaval de 2016 acabar, ele dá graças a Deus por não ter ouvido os conselhos de uma tia. “Ela dizia para minha mãe: ‘Manda o Luiz arrumar um emprego. Fica com essa crioulada cantando samba... Olha o exemplo do pai dele, que não deu em nada’”, lembra-se, sem ressentimento.

Aliás, não importa o assunto, o sorriso não desaparece do rosto dele em nenhum momento. O intérprete não perde o bom humor nem mesmo ao lembrar de momentos complicados, como a polêmica que causou ano passado ao declarar a uma rádio gaúcha que, se o desfile da Sapucaí era o espetáculo que é hoje, ‘deveríamos agradecer à contravenção’.

“É mentira?”, dispara ele, já emendando: “O Carnaval, hoje, é o que é por causa da criação da Liga das Escolas de Samba. E quem criou a Liga das Escolas de Samba? Castor, Anísio, Luizinho Drummond, Carlinhos Maracanã...”, vai listando.

Para Neguinho, o mais importante é que, hoje, há organização e investimento no setor. “Dizem que eles eram da contravenção. Eu não sei, porque eu não jogo no Bicho. Eu falei isso sim: os caras colocaram grana, organizaram, transformaram os desfiles das escolas de samba”, justifica-se. “Quiseram até me processar por associação à contravenção. Se existe contravenção, eu nem sei. Só sei que existe samba. Uns me defenderam, mas fui muito criticado. Me chamaram até de macaco”, lamenta ele.

Autor de sambas melódicos como o ‘Sonhar com Rei dá Leão’, primeiro que criou e cantou para a Azul e Branca, ele se diverte ao revisitar a trajetória do gênero. “Hoje se preocupam mais com o refrão, em ser algo de fácil assimilação. Nenhuma censura, mas “obabá, obaobabá..”, “explode coração...”, entendeu?”, explica ele, que decidiu entrar na mesma onda, quando lançou ‘Mulher, Mulher, Mulher’, em 2009.

“Queria fazer uma música para que o povo pegasse rápido e eu faturasse uma graninha”, assume Neguinho, que estava sem gravadora na época. “Lembro que só dava os baianos (do axé) ganhando dinheiro! Eu já tinha essa música há uns 40 anos com um amigo meu lá de Manaus, o Murilo Raiol. Aí, disse: ‘Vou botar isso para fora’”, se diverte, Neguinho. “Deu para pagar uns aluguéis atrasados, viu?”, assume ele, que já prepara outra do tipo.

“Agora eu estou com uma outra aí que se chama ‘Namorar Pelado’”, diz o compositor, cantarolando um trecho: “A moda agora é namorar pelado/No fuco-fuco, nheco-nheco, sem parar/ Oba!”. “Música boa é o que o povo canta! Michel Teló? Está pagando as contas! Bonitinho, bota aquela calcinha apertada, canta aquela música água com açúcar e toma-lhe de dinheiro na conta!”, dispara. “Desculpa, eu sou ignorante, nunca tinha ouvido falar nesse menino que morreu, o Cristiano (Araújo). Pelo amor de Deus! Eu tenho quase 50 anos na música e nunca tinha ouvido falar dele. E o cara estava com a conta bancária estourando. Se perguntar quem é Neguinho da Beija-Flor, todo mundo conhece. E estou duro!”

VIDA NOVA APÓS O CÂNCER

Em 2009, enfrentando um câncer no intestino, o maior medo de Neguinho era não poder participar do desfile de sua escola de coração. Por causa dos efeitos da quimioterapia, deu para puxar o samba durante só 20 minutos dos 80 totais. Em compensação, até casamento teve. “Vi na TV um programa com casamentos diferentes. Aí, falei para a Elaine (mulher dele), poxa, o nosso ambiente é a Avenida. E se a gente casasse lá? Mas falei por falar!”, recorda. Elaine não perdeu tempo. Organizou tudo sozinha e só comunicou ao futuro marido que se casariam em uma cerimônia de dez minutos (que durou oito), antes de a Beija-Flor entrar na Sapucaí.

“Quando eu soube do câncer, a Luiza estava na barriga da Elaine há seis meses. Queria que os médicos me salvassem para poder vê-la nascer. Hoje está com 7 anos, daqui a pouco está namorando!!!”, comemora Neguinho, hoje, com uma visão de vida diferente. “Passei a valorizar mais as amizades, as coisas simples, como poder levantar sozinho e ir ao banheiro. Depois, fiz até questão de voltar para o bairro em que eu morava (Nova Iguaçu), fiz uma reforma na casa onde nasci, reencontrei os amigos das antigas, que foram os que mais se importaram comigo. Hoje eu moro em Copacabana, mas faço questão de ir para lá, sempre. É onde estão os parceiros de pelada, de buraco... Voltei a jogar bola de gude, a pescar peixe na vala”, diz o cantor.