De carona com Macula

Saiba comoo lavadorde carros e gandula ficou conhecido como umdos mais folclóricos jogadores brasileiros

Por O Dia

Rio - O sorrisão continua o mesmo. O jeito fanfarrão também não se perdeu com o tempo. Aos 45 anos, Macula, ex-atacante de Bangu, Fluminense, Vasco e Palmeiras, continua driblando as adversidades da vida sem perder o bom humor. O menino órfão do subúrbio carioca que deu um olé na marginalidade trabalhando como lavador de carros e gandula, antes de vingar no futebol, hoje é assessor parlamentar do deputado estadual Bebeto. Um trabalho que espera trocar em breve pela carreira de treinador.

Macula lava seu carro em AboliçãoCarlos Moraes / Agência O Dia

“A vontade e o coração pedem para voltar ao futebol. Quero ser treinador. Está pintando uma chance na Arábia. Quem sabe?”, ressalta o ex-jogador, que após pendurar as chuteiras no XV de Piracicaba, com apenas 35 anos, fez um pouco de tudo para sobreviver. Foi corretor de imóveis em Nova Iguaçu e teve até uma escolinha de futebol com 200 crianças.

“Era o Tio Macula, pode? É muita derrota, né? Mas aprendi muito com as crianças. Depois, fiz curso de treinador pela Agap (Associações de Garantia ao Atleta Profissional) até surgir o trabalho com Bebeto”, explica. Mesmo aposentado há dez anos, as lembranças do futebol ainda estão vivas. Ao ser convidado para jogar no time dos Amigos de Bebeto, na reinauguração do Maracanã, Macula não conteve a emoção. “Chorei muito. Não imaginava que voltaria um dia a pisar no Maracanã. Passou um filme na minha cabeça, foi maravilhoso”, revela.

Na viagem ao passado, Macula se lembrou dos tempos em que era moleque e passava o dia inteiro em Moça Bonita para fazer a única refeição do dia. Recordou a emoção de jogar ao lado de feras como Marinho, Claudio Adão, Arthuzinho e outros craques de quem ele lavava os carros. Ou ainda dos incríveis treinos de gandula, com os quais aprendeu todos os segredos para esconder a bola.

“Você já ouviu falar em treino para esconder a bola? Pois é, no Bangu tinha com o supervisor. Um apito dele e sumiam duas bolas. Aos 40 minutos do segundo tempo, só ficava a bola do jogo. Cansei de ser expulso pelos juizes por isso”, lembra, às gargalhadas.

Macula com o time do BanguArquivo

Nos tempos de Castor

Macula também não se esquece da época em que Castor de Andrade era patrono do Bangu e protagonizou episódios folclóricos. Em um deles, o dirigente ficou irritado com o atraso dos jogadores para o treino, pegou um revólver e deu um tiro na trave para assustar o lateral Marco Antonio, que tirava uma soneca debaixo do travessão.

“Está cheio de cachaça desgraçado. Aqui é lugar de treinar”, esbravejou Castor, segundo Macula. “Aquele dia todo mundo teve que dar explicação pelo atraso. Mas o Castor era muito querido. Dava bicho até em coletivo. Quem não iria gostar?”, questiona.

Macula atuou no FluminenseArquivo

Uma amizade ‘animal’

Nos 13 anos em que jogou futebol profissionalmente, Macula ganhou poucos títulos — o mais importante foi o Campeonato Paulista de 1994, pelo Palmeiras —, mas fez grandes amigos. Um deles foi Edmundo, que viu despontar nos juniores do Vasco.

“Ele já aprontava nos juniores, mas eu gostava dele. Sempre dava a minha chuteira para ele. Uma noite, Edmundo pediu o meu carro novinho emprestado. Nem dormi. Gostava mais do meu carro do que de mim mesmo. Mas não teve problema”, revela. Anos depois, Edmundo retribuiu a gentileza em uma festa. Macula estava sem carro e por isso queria sair mais cedo. Depois de insistir, sem sucesso, para Macula dormir na sua casa, Edmundo mandou o caseiro despejar na mesa um saco cheio de chaves.

“Caíram oito chaves de carros. E Edmundo: ‘Pega a do carro que quiser e leva. Me entrega quando puder’. Surpreso, peguei a chave de um Audi zero-quilômetro e nunca esqueci do carinho do ‘Animal.’”

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