Por onde anda? Jair Marinho: alma tricolor

Aos 77 anos, ex-lateral do Flu e da Seleção ajuda a revelar craques

Por O Dia

Jair ajuda na projeção de novos craquesMárcia Vieira / Agência O Dia

Rio - Os pequenos craques da escolinha de futebol do Praia Clube não fazem ideia de que o professor de cabelos grisalhos e sorriso fácil foi um dos maiores laterais-direitos do futebol brasileiro. Aos 77 anos, Jair Marinho orgulha-se de ter brilhado no time de coração, o Fluminense, pelo qual foi campeão do Rio-São Paulo em 1960, e Carioca, em 1959. Isso sem contar as boas passagens por Corinthians, Portuguesa de Desportos, Vasco e seleção brasileira, onde foi reserva de Djalma Santos na Copa de 1962. Hoje, curtindo a merecida aposentadoria em Niterói, ele demonstra ter fôlego para ensinar os segredos da bola aos mais novos.

“Converso, ensino e tento passar a paixão que eu tenho até hoje pelo futebol. Ganhei dinheiro, joguei para caramba. Do futebol só tive prazer e alegria. Tenho 77 anos e agradeço a Deus poder contar até hoje as minhas histórias”, revela Jair, que hoje tem 60 alunos com idade entre 5 e 17 anos na escolinha do Praia Clube.

Em boa forma física e sem transparecer os quase 80 anos de vida, Jair é um exemplo para a garotada.“Não bebo, não fumo. Faço musculação na academia e me cuido muito”, garante.

Curiosamente foi a má forma física que o fez abandonar precocemente o futebol, com apenas 32 anos.

“Eu comia um pedaço de carne e engordava três quilos. Fiquei gordo. Fazia ‘cabana de índio’ (vestir várias camisas para suar em excesso) dentro de campo para perder peso. Quando achei que não tinha mais condições, parei”, diz Jair, que encerrou a carreira no Campo Grande, em 1970.

Hoje, ele leva uma vida simples no bairro do Fonseca, em Niterói, mas tem sempre por perto o carinho dos quatro filhos e dos netos. “Fiz 21 jogadores profissionais, mas não ganhei um tostão. Acho que cumpri meu dever. Ajudei quem precisava. O dinheiro nunca me pegou. Mais vale uma amizade do que dinheiro no bolso”, filosofa. Um bom exemplo do desprendimento de Jair ocorreu no início da carreira quando foi convidado a jogar nas Laranjeiras:

“Sempre fui Fluminense. Essa camisa é maravilhosa. Quando me disseram que receberia uma ajuda de custo nem acreditei. Você vai me pagar para jogar no meu time? Eu jogo de graça!”.

Jair Miranda foi ídolo do FluminenseArquivo

Amizade muito especial com Altair

Jair Marinho leva suas amizades a sério. Prova disso é sua estreita relação com Altair, ex-lateral-esquerdo do Fluminense e bicampeão mundial em 1962, que sofre há cinco anos do Mal de Alzheimer. É Jair quem toma conta dos passos do amigo nos dias de hoje.

“Ele mora sozinho com uma pessoa que cuida dele. A mulher e a filha morreram e a filha adotiva foi cuidar da vida dela. A única pessoa que se liga mais nele sou eu”, revela.

A amizade da dupla é bem antiga. Começou ainda no juvenil do Fluminense e se ganhou forla porque os dois já eram vizinhos em Niterói: “Somos amigos há mais de cinquenta anos. Considero o Altair como um irmão mais novo. Sempre cuidei dele, desde a época de jogador. Ele é um um dos grandes amigos que fiz na vida”.

Jair posa para foto ao lado de PeléArquivo

Más lembranças de Leonardo

Dos 21 jogadores que Jair revelou para o futebol, o ex-lateral-esquerdo Leonardo, ex-dirigente do PSG, certamente foi o que mais se destacou. Mas o ídolo tricolor não tem boas lembranças de seu pupilo. “O Leonardo foi treinar na minha escolinha como ponta-esquerda. Disse que ele não dava para a posição, porque não tinha velocidade e nem sabia driblar”, lembra.

Por sugestão de Jair, ele passou a jogar na lateral, se firmou e acabou sendo levado para o Flamengo: “O Leonardo não gosta que eu conte essa história. Só tenho uma reclamação. Ele fez o Gol de Letra (projeto social) em Niterói e nunca me convidou. Mas quem pagava o lanche quando ele começou era eu”.

Jair fez história no FluminenseArquivo

Tapa em ponta galês garantiu vaga na Copa

Jair Marinho carimbou seu passaporte para a Copa de 1962 de uma maneira inusitada. Na preparação para o Mundial, o Brasil fez um amistoso contra País de Gales, que tinha no ponta-esquerda Cliff Jones seu maior destaque. Naquele dia, o titular Djalma Santos passou mal no vestiário e foi vetado.

“Nas primeiras jogadas do Cliff não vi a cor da bola. Estava ficando nervoso. Passei em frente ao banco e o pessoal me dava moral”, lembra o ex-lateral: “Achei estranho e pensei: este é o cara que o Djalma não queria enfrentar para não correr o risco de não ir à Copa. Se ele joga aquela partida poderia ser cortado.”

Mas para a sorte de Jair, o desastre anunciado não se confirmou após ele tomar uma decisão radical.

“Estava passando vergonha, resolvi então matar o desgraçado.Lançaram uma bola para o Cliff, eu fui em cima dele e caímos no túnel. Lá dei uns tapas nele, mas ninguém viu. Em campo dei mais um pescoção e a torcida aplaudiu. Depois o Cliff pediu para sair. Se eu não fosse macho ali, não teria ido à Copa”, brinca.

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