Zé Maria: o cestinha que virou zagueiro

Ex-jogador, que brilhou na defesa do Botafogo na década de 60, por pouco não virou às do basquete nacional

Por O Dia

Rio - Ele empurra o carrinho no supermercado de Niterói usando a mesma agilidade que um dia parou o Rei Pelé. Conhece o preço de tudo e o melhor dia para fazer as compras da família. Pouca gente sabe, mas aquele senhor alto, de cabelos brancos, e imensos olhos azuis, é o ex-zagueiro Zé Maria, que brilhou no Botafogo na década de 60. Sem apelar para violência ou para os chutões, o gigante formou com Nilton Santos uma dupla de zaga reverenciada até hoje pela velha guarda alvinegra.

“Não dava para dar pontapé, apelar. Como é que ia fazer isso jogando ao lado do Nilton Santos? Ele sempre dizia: ‘ Zé, é só na bola’, relembra o ex-jogador, que fez parceria com o Enciclopédia quando ele trocou a lateral esquerda pela zaga, no fim da carreira. “Foi maravilhoso jogar com Nilton. Ele sempre me deu moral”, emociona-se Zé Maria, que quase brilhou em outro esporte.

“Eu jogava basquete no Canto do Rio, adorava. Tinha boa estatura (1,86m) e cheguei a fazer 31 pontos em um jogo. Fui até convidado para jogar no Franca, mas optei pelo futebol”, relembra.

Zé Maria foi ídolo alvinegroAndré Luiz Mello / Agência O Dia

A grande virada ocorreu por acaso. Ao sair da quadra fazendo embaixadinhas, chamou a atenção do técnico de futebol Zezé Moreira, que ficou impressionado com sua habilidade. Fez um teste, foi aprovado com louvor e brilhou no Carioca defendendo o Canto do Rio, até se transferir para General Severiano, onde fez história. Foram 246 jogos com a camisa alvinegra e dois títulos inesquecíveis, o bicampeonato estadual e o Rio-São Paulo de 62. Em grande forma, Zé Maria chegou a parar Pelé, nos inesquecíveis clássicos com o Santos e foi convocado para a seleção. Mas, apesar de integrar a lista de 40 jogadores, não foi ao Mundial de 1962, no Chile.

Após superar a frustração, o ex-zagueiro defendeu Bonsucesso, Náutico e Baltimore, dos Estados Unidos, onde encerrou a carreira. Na volta ao Brasil, trabalhou por 14 anos na tesouraria do Estaleiro Mauá, onde se aposentou.
Hoje, aos 74 anos, Zé Maria só tem olhos para a família.

“Meu dia a dia é cuidar dos netos, pagar contas e fazer compras. Caminho, cuido da saúde, alimentação. Como verdura e evito gordura. Quero viver um pouco mais”.

Zé Maria com jogadores do Botafogoarquivo pessoal

Declínio de Garrincha doeu muito

Zé Maria orgulha-se de ter jogado ao lado de alguns dos maiores craques da história do futebol brasileiro — Zagallo, Quarentinha, Nilton Santos e Garrincha. Foi justamente o “Anjo das pernas tortas”, que lhe causou maior comoção. Zé Maria testemunhou o declínio do eterno camisa 7 alvinegro.

“Ele brincava muito comigo, me chamava de Zezinho. Mas passados alguns anos o reencontrei em uma festa e ele não me reconheceu”, relembra: “Levei um susto. Depois o Nilton Santos falou que eu era o Zezinho. Ele lembrou e choramos juntos. A bebida já lhe fazia mal.”

Saudade da liga nos EUA e arrependido com regresso

O zagueiro Zé Maria foi um dos primeiros brasileiros a jogar na liga de futebol americana, nove antes de Pelé estrear no Cosmos. Ele havia deixado o Náutico, quando recebeu o convite, no final de 1966, no time do Baltimore, no estado de Maryland.

“Fiquei três anos nos Estados Unidos. Voltei por causa do frio, minha mulher não se adaptou. Mas eu devia ter permanecido por lá. Poderia ter ficado na universidade ensinando as crianças, mas tinha dois filhos. Hoje vejo que foi um erro”, lamenta.

No Baltimore, Zé Maria jogou com mais cinco brasileiros: o centroavante Hipólito, o ponta direita Nélio, os meias Uriel e Fernando, e o lateral-direito Badu:
“Morávamos juntos. Eu cheguei alguns meses depois deles. Era o mais velho e cozinhava. Depois minha mulher chegou e aluguei uma casa de cinema. Devia mesmo ter ficado por lá.”