Felipão e Murtosa: Uma dupla perfeita

Ao longo da parceria, auxiliar viu o chefe amadurecer. Scolari não toma uma decisão, dentro ou fora de campo, sem antes ouvir a opinião do amigo

Por O Dia

Rio - Flávio Cunha Teixeira, de 63 anos, é um homem sensível, discreto e com a ambição na medida certa. Que ninguém se engane: Murtosa (apelido de família), fiel escudeiro de Luiz Felipe Scolari há 31 anos, está feliz por isso. Ele não é a sombra do técnico da Seleção, mas uma voz importante que ecoa na consciência do chefe.

Com a doutrina espírita kardecista, aprendeu a usar a intuição e já foi até salvo em campo. Gaúcho de Pelotas, iniciou a parceria com Felipão no Brasil (RS). Só se separou do amigo ao treinar o Juventude, em 1997, e o Palmeiras, em 2000 — quando ganhou a Copa dos Campeões — , e em 2002, após o Mundial.

Com Scolari, participou da conquista do pentacampeonato, trabalhou nas seleções portuguesa e do Kuwait, no Chelsea e em clubes da Arábia Saudita, entre outros. Casado com Lizete, pai de Fernanda, de 34 anos, e Eduardo, de 24, Murtosa sente boas vibrações em relação ao hexa: “Com esse astral, há grande chance de sermos campeões”.

Murtosa costuma ser sério dentro dos gramados%2C mas nem tanto fora deleCarlos Moraes / Agência O Dia

PARCERIA

“Começou em 1983. Joguei contra ele no Sul. Comecei aos 17 anos no profissional e, aos 26, estourei o joelho. Fui para a Faculdade de Educação Física e fiz especialização em futebol. Entrei na área técnica e ganhei uma chance como preparador físico. Fui técnico antes de trabalhar com o Felipão”.

BRASIL DE PELOTAS

“Eu era preparador. O capitão, que era meu colega, pediu uma chance para o Felipão. Falei que não gostava muito dele, até porque ele me dava umas botinadas quando jogávamos contra. Ele era zagueiro e eu atacante. Mas aceitei. O Felipão chegou, mas ficou um ambiente ruim. Diziam que queria derrubá-lo até que o diretor nos convidou para jantar. O Felipão perguntou se eu queria ser técnico e respondi que, se quisesse, ele não estaria lá. Juntamos forças e fomos vice-campeões gaúchos”.

SEGREDO DA PARCERIA

“O Felipe é muito direto. Ou gosta ou não gosta. Não fica em banho-maria. Tivemos inúmeras situações de dificuldade, estivemos fora do país e trabalhamos no mundo árabe, que naquela época era muito difícil. Tinha que haver união”.

AMIZADE E FRANQUEZA

“Se você é amigo da pessoa, tem que adverti-la e não ser o amigo da onça, que sempre bate nas costas, fala que está tudo bem e por trás você diz que não. Brigamos inúmeras vezes e as pessoas olhavam no campo e pensavam: ‘Esses caras vão sair no soco’. Com o tempo, você aprende como falar”.

Murtosa vai para sua terceira Copa do MundoCarlos Moraes / Agência O Dia

MUNDO ÁRABE

“Em dois anos, começamos a enfrentar gente top. No futebol, se não for um cara perspicaz, você entra no esquecimento. Lizete foi uma mulher compreensiva e entendia. Sempre para onde fui, levei a família. No mundo árabe, a dificuldade era grande, mas a gente entendia que era o grande filão para crescer no meio”.

PORTUGAL

“Meu avô era de Portugal.A passagem na seleção foi ótima e tivemos sucesso também”.

INTUIÇÃO

“Não tenho manias, mas intuições do que pode acontecer de bom. Dou o exemplo do Makukula, africano naturalizado português que jogava no Marítimo. Um centroavante estava machucado (Nuno Gomes). O Felipão não poderia trabalhar (foi suspenso em 2007, em Portugal) e eu tinha que trabalhar. Buscávamos a vaga para a Euro e enfrentamos o Casaquistão. Falei para o Felipão: ‘Vamos convocar esse cara. Ele vai resolver esse jogo’. A partida estava 0 a 0 e coloquei o Makukula. Na primeira bola cruzada, ele fez 1 a 0. O Cristiano fez 2 a 0. Com o jogo resolvido, tomamos um gol no fim. Foi intuição”.

RELIGIÃO

“Sou espírita, porque a minha família é espírita, kardecista. Estudo e leio muito. Mas não se pede quando não é necessário. Tenho fé, acredito, me preparo. Quem toma boas ações receberá boas ações. Respeito todas as religiões. Cumpro promessa com o Felipão porque estamos no mesmo barco. Se ele prometeu, vou junto”.

PARREIRA

“É muito inteligente, mais pausado, analista, mais sensível às coisas. Houve um encaixe legal. No começo, a gente achava que poderia haver divergência de ideias, mas não”.

Murtosa ao lado de Parreira e FelipãoDivulgação

OS BIGODES

“Acho que foi para melhorar minha cara (risos), minha mulher gostou e eu fiquei”.

TÉCNICO OU AUXILIAR?

“Comecei como técnico. Ganhei com o Palmeiras. Minha vida está desenhada. E me realizei. Poderia ambicionar ser técnico, mas será que daria certo tanto tempo? Se o trabalho dele dá certo, o meu também dá. Não posso reclamar”.

FUTURO

“Eu vivo muito o hoje. O amanhã vamos ver. Penso em ter uma atividade no ramo, dar atenção numa área de formação. Descansar é para se acomodar e morrer”.

COPA DO MUNDO

“Teremos dificuldades. Mas, com esse astral e o ambiente que temos, há grande chance de sermos campeões. A grande sabatina foi a Copa das Confederações. Houve afinidade com o time e a torcida. Temos que nos preocupar com o campo. Quando a coisa começar bem, o povo vem junto”.

Murtosa ao lado de Felipão em 2002Marcelo Regua / Agência O Dia

DO FIEL ESCUDEIRO PARA O CHEFE

Em 31 anos de parceria, Murtosa conheceu um Felipão mais intempestivo e, algumas vezes, tratou de acalmá-lo. Mas, nesse tempo, também viu o amigo e chefe amadurecer. Como fiel escudeiro, convive com um Scolari brincalhão, ao contrário da imagem de ranzinza que muitos têm do comandante. A longa convivência, no entanto, não impediu que Murtosa caísse numa ‘pegadinha’ feita por Felipão no seu retorno à Seleção em 2012, dez anos após a conquista do pentacampeonato. O auxiliar só soube pela tevê que também faria parte da nova comissão técnica, na busca pelo título mundial no Brasil. Confira descrição do treinador pelo seu fiel escudeiro:

“Felipão é um cara que, quem convive com ele, nota que é bem diferente da imagem que formam dele. O pessoal acha que está sempre de mau humor, mas não é o caso. Ele tem que ter postura. Um técnico com essa responsabilidade tem que ser mais no canto dele porque, se tomar uma atitude precipitada, não há volta.

Ele teve um amadurecimento muito grande. Se você analisar, é mais ponderado, ouve mais, não age tão repentinamente. Antigamente, era mais intempestivo. Eu sempre fui um cara que, aparentemente, ficava tranquilo. Eu saía e falava: ‘Calma, calma’. Hoje a coisa fica natural.

No nosso trabalho, a hierarquia marca. Tem que ser o complemento da pessoa que comanda. Senão, não teria dado certo. Seria sempre o caso do segundo derrubar o primeiro.
A gente sempre troca informações, mas as decisões são dele. Na Copa das Confederações, o jogo contra o Uruguai estava encardido, 1 a 1. Tinha que trocar. Sentimos que o Hulk tinha cansado. Mas quem entraria? O Parreira disse Jadson, eu falei Lucas e ele disse: ‘Vou com o Bernard’. Na hora de uma troca, é coisa de segundos. Você toma informação, mas você tem as suas convicções. Uma das grandes virtudes do Felipe é que ele sabe ouvir, mas ele toma as decisões.

Na volta dele à Seleção, em 2012, eu achei que não estaria junto. O Felipão não falou nada para mim. Soube e fiquei uma arara, vendo a televisão, apresentando o Felipão e o Parreira. Eu pensei: ‘Tô fora, esse cara não falou comigo’. Em frente à televisão, eu pensei: ‘É muita sacanagem’. Saí da sala para não dizer um palavrão. Pensava: ‘Esse filho da mãe está me esquecendo’. Lá pelas tantas, falaram que eu faria parte também. Depois da entrevista, ele me disse: ‘Aí, Baixinho, ficou furioso comigo?’. Ele contou só na coletiva e disse que queria fazer uma surpresa. Fazer surpresa uma ova! (risos)”.

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