Vítimas de transtornos mentais sofrem com a psicofobia

Personagem bipolar de novela é contestada

Por O Dia

Rio - A personagem Nelita, vivida pela atriz Bárbara Paz, na novela ‘Regra do Jogo’, ajuda a expor um drama que afeta 27 milhões de pessoas no mundo, sendo mais de 4 milhões no Brasil. A bipolaridade, em que o doente oscila entre episódios de euforia e de depressão, é a sexta principal causa de incapacidade no mundo e pode reduzir a expectativa de vida em 9,2 anos. É ainda a doença mental com mais alto índice de suicídio: cerca de 15% dos doentes se matam.

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Apesar disso, boa parte dos portadores desta e outras doenças mentais estão à margem do atendimento, encobertos pelo preconceito. Uma realidade que a Associação Brasileira de Psiquitaria (ABP) quer mudar com a campanha ‘Psicofobia é crime’, lançada há quatro anos e que já ganhou a adesão de personalidades como o humorista Chico Anysio, o locutor esportivo Luciano Vale e a atriz Cássia Kiss, todos portadores de algum transtorno. Mesmo sem relatar problema psiquiátrico, Bárbara Paz também abraçou a ideia. O próximo passo agora é aprovar no Congresso Nacional um projeto de lei que institui o Dia Nacional do Enfrentamento à Psicofobia em 12 de abril, data em que nasceu Chico Anysio, que sofria de depressão.

Hoje, Dia Mundial da Saúde Mental, a ABP alerta sobre o forte preconceito em relação a doenças mentais, muitas vezes tratadas como um tabu pela sociedade. A personagem de Nelita, que poderia colaborar para desmistificar a doença, é vista com desconfiança entre médicos e pacientes. “Eu não me identifico com a personagem. Eu sinto que ela é bem exagerada. Você tem um a libido mais aflorada sim, mas não como uma cena que eu vi dela. Eu fiquei na verdade até sem um pouco de vontade de sexo quando tive crise”, conta a funcionária pública Geórgia (nome fictício), de 48 anos, diagnosticada como bipolar há cinco anos.

O presidente da ABP, Antonio Geraldo da Silva, também discorda: “A bipolaridade, como está sendo mostrada na novela, não é na vida real exatamente daquele jeito”, afirma. No caso apresentado na trama, Antonio identificaria a doença da personagem como uma dupla personalidade. “A diferença é que, na bipolaridade, o paciente fica fora da realidade. Já na dupla personalidade, há o envolvimento com o caráter. O indivíduo não sabe o que está fazendo, o que quer, onde quer e objetivos”, explica. Para ele, a personagem vive um mix de sintomas.

Para o especialista, é necessário lutar para que as pessoas tenham acesso ao tratamento psiquiátrico e possam levar uma vida normal. “Há outras doenças comuns que muitos podem ter e não saber, como a depressão, a ansiedade, transtornos alimentares, como bulimia, anorexia, TDAH (transtorno do déficit de atenção e hiperatividade) e esquizofrenia”, explica.

‘Foi um ato fora de mim’

Geórgia foi diagnosticada inicialmente com depressão. Em 2010, teve um surto bipolar. “Estava muito eufórica, agressiva, comprava tudo sem poder. Cheguei a comprar um carro mesmo sem precisar porque me sentia a dona do mundo. Foi um ato totalmente fora de mim, algo inconsequente”, diz ela.

A funcionária pública chegou a ficar internada numa clínica particular no Rio. Lá, sofreu preconceito dos próprios internos: “Um paciente da ala de dependentes químicos chegou a me chamar de maluca. Alguém que estava no mesmo lugar que eu, fazendo piada de mim”.

Após 10 meses de licença, Geórgia voltou ao trabalho. Hoje toma uma dosagem bem menor de estabilizadores de humor e consegue lidar com a doença. “Cheguei a brigar com a minha mãe, a pessoa que eu mais amo. Se não fosse o apoio dela, teria enlouquecido”, lembra.

Reportagem da estagiária Carolina Moura

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