Por thiago.antunes

Rio - O secretário estadual de Segurança, José Mariano Beltrame, afirmou ontem, segundo reportagem da Agência Brasil, que ‘são inadmissíveis os confrontos entre policiais e professores da rede municipal ocorridos em frente à Câmara dos Vereadores do Rio, segunda-feira e sábado’. A declaração foi dada antes do conflito desta terça-feira.

Ainda de acordo com Beltrame, a melhor maneira de solucionar a situação seria evitar qualquer tipo de violência de ambas as partes.

PMs usam cassetetes após serem cercados por manifestantesJosé Pedro Monteiro / Agência O Dia

“A manifestação é uma coisa, a utilização de mecanismos que agridem as pessoas é totalmente antagônico ao processo democrático e às manifestações. Eu acredito que um movimento que se torna caótico é ruim pra todo mundo. Perdem os manifestantes, perde a polícia e também perde a sociedade, que presencia cenas que ninguém gostaria de ver”, disse o secretário, no Palácio Guanabara, onde participou do lançamento de curso de tecnologia em segurança pública para policiais, bombeiros e guardas municipais.  O curso é uma parceria do governo do Rio com universidades públicas e terá duração de dois anos.

Cinelândia da intolerância

A Cinelândia virou, pelo segundo dia seguido, uma praça de guerra nesta terça. O primeiro grande tumulto ocorreu por volta das 14h, quando um grupo de manifestantes protestou contra os policiais que haviam detido um jovem. Policiais militares usaram bombas de gás lacrimogêneo para dispersar a multidão e os manifestantes atiraram pedras nos agentes.

Perto de pessoas acampadas%2C ativistas usam tapume para se protegerJosé Pedro Monteiro / Agência O Dia

Pouco depois das 16h30, a confusão recomeçou e não parou mais. Após tentativa de invasão da Câmara por black blocs, policiais voltaram a usar bombas. Desta vez, porém, não apenas na Cinelândia, mas nos arredores. A PM passou a esvaziar quarteirão por quarteirão em direção à Candelária, mas, sem policiais suficientes para atuar em todo o Centro, por volta das 17h30 os manifestantes voltaram à Cinelândia.

Os professores da rede pública de ensino, municipal e estadual, foram mais uma vez alvos da truculência da Polícia Militar. Desta vez, no entanto, os policiais reagiram às pedradas e à tentativa de invasão da Câmara Municipal pelos black blocs. Vestidos de preto, os black blocs não chegavam a 50, mas tinham apoio de cerca de outros cem manifestantes, de um total de cerca de mil. O restante se dividia entre críticas e elogios ao grupo extremista.

“Eles não acrescentam nada. E não confrontam ninguém. Jogam uma cabeça de negro na polícia, meia dúzia de pedras, e saem correndo, expondo todo mundo à truculência dos policiais, que são despreparados. O que eles fazem é tirar trabalhador da rua e dar razão à polícia”, reclamou a professora Vânia Lúcia de Almeida.

Tapume serviu de escudo para quem tentava se proteger das bombas de gás lacrimogêneoJosé Pedro Monteiro / Agência O Dia

Outros, porém, pregavam apoio ao movimento. No carro de som, um dos líderes da manifestação tentou puxar o coro: “A nossa luta unificou: é estudante, black bloc e professor”.

À noite, o clima continuou tenso na região. O professor Júlio Rocha foi detido e encaminhado à 17ª DP (São Cristóvão), acusado por PMs de ter jogado um líquido contra um policial. No entanto, ao ser abordado, ele relatou que somente correu para o ponto de ônibus e ‘não sabia o motivo da detenção’.

O ator Ricardo Porto, de 29 anos, relatou que foi chamado de ‘maconheiro’ por um PM e orientado a apresentar queixa contra o militar por outros colegas de farda. “Estava apenas manifestando meu direito”, disse Ricardo, inconformado.

Às 21h30, militares do Batalhão de Choque numa picape atiraram bombas e gritaram que aquilo significava ‘toque de recolher’. Orelhões e sacos de lixo foram incendiados; e agências bancárias, depredadas.

Especialista: truculência alimenta o apoio popular

A truculência policial contra os professores serviu de combustível para alimentar a manifestação da categoria. A opinião é da cientista social Silvia Ramos, do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Cândido Mendes.

“A violência da PM fez os professores ganharem o apoio da população”, avalia a especialista, que criticou a falta de comando sobre os agentes por parte do Estado.

Homens tentam arrombar portão da Câmara para assistir à sessão que votava Plano de Cargos para professoresJoão Laet / Agência O Dia

Segundo um inspetor da 5ª DP (Gomes Freire), sete pessoas estiveram na delegacia até às 21h30 para prestar queixa de lesão corporal. Elas teriam sido atingidas por PMs. Em nota, a Polícia Militar informou que 17 ativistas foram detidos e quatro militares ficaram feridos.

Já a Secretária Municipal de Saúde informou que uma idosa identificada apenas como Neide havia dado entrada no Hospital Souza Aguiar com escoriações leves. Pelo menos cinco pessoas desmaiaram e foram atendidas em ambulâncias dos bombeiros. Professores municipais receberam apoio de cerca de 150 colegas da rede estadual e da Faetec, que saíram do Largo do Machado em direção à Cinelândia.

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