Por cadu.bruno
Rio - O capitão Paulo Ramos, comandante da UPP Arará/Mandela, já identificou o policial militar que fez o disparo que matou o idoso José Joaquim de Santana, de 81 anos, com um tiro no rosto durante um manifestação na comunidade Mandela II, no Complexo de Manguinhos, na Zona Norte, na noite desta quarta. A informação foi divulgada nesta quinta pela Coordenadoria de Polícia Pacificadora nesta quinta-feira.
Idoso foi atingido por disparo durante confusãoReprodução / Rio de Paz

Segundo a polícia, o capitão colocou a arma do PM à disposição para uma perícia. Ainda de acordo com a coordenadoria, policiais envolvidos na ocorrência ficarão afastados das funções operacionais até a conclusão do inquérito. Na confusão quatro policiais tiveram ferimentos leves, foram sorridos e passam bem.

O policiamento foi reforçado na comunidade nesta quinta-feira com efetivo de diversas UPPs da região. A polícia também intensificou a segurança nos principais acessos da Avenida Leopoldo Bulhões.
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Morte de idoso revolta moradores
A madrugada desta quinta-feira foi de tensão e revolta em Manguinhos. A Rua Leopoldo Bulhões chegou a ser fechada durante a madrugada após a morte do idoso. O motorista de um caminhão dos Correios foi ferido com uma pedrada na cabeça. Durante o confronto, traficantes dispararam contra os policiais, que precisaram procurar abrigo.

De acordo com o fundador do movimento Rio de Paz, Antônio Carlos Costa, o estopim foi a abordagem de PMs da UPP a um menor de 13 anos. Moradores exigiram que a mãe acompanhasse o adolescente até a delegacia e teve início um tumulto. Ainda segundo testemunhas, um PM teria feito um disparo para o alto no intuito de dispersar os descontentes. O disparo atingiu José Joaquim de Santana, que estava na varanda de casa assistindo ao tumulto. Ele morreu na hora.

Traficantes dispararam contra policiaisOsvaldo Praddo / Agência O Dia

"Foi o que aconteceu. Deram tiro para o alto e acertaram um idoso de 81 anos. Uma truculência total numa uma criança de 13 anos. Não deixaram a mãe acompanhar a ocorrência na delegacia", denunciou o presidente da associação de moradores da comunidade, Marcio Barrosa.

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Revoltados, manifestantes seguiram para a Rua Leopoldo Bulhões, via de acesso a comunidade, na altura do Centro de Operações Postais (COP) dos Correios. PMs foram atacados com pedras e fogos de artifício. Veículos que passavam pelo local acabaram atingidos, assim como um cinegrafista de uma rede de TV que levou uma pedrada na mão. Os moradores ainda tentaram fechar a pista e motoristas tiveram que voltar na contramão.
Moradores ficaram revoltados com morte de idosoOsvaldo Praddo / Agência O Dia

"Começaram a atirar pedra, pau no caminhão. Para não morrer apedrejado, acelerei, mas acabei atingido no rosto", relembrou o motorista do caminhão de entrega dos Correios, Róbson Gomes Amazonas.

Segundo Antônio Carlos, após a morte do idoso ele recebeu uma ligação de moradores e seguiu para a comunidade. Segundo o fundador do Rio de Paz, houve uma presença maciça de PMs na favela atuando com bombas de gás lacrimogênio, o que revoltou os moradores. Ele cobrou uma presença maior do poder público nos serviços de melhoria para a população carente.

"Não há dúvida de que hoje foi aberto um fosso. A situação desde o início já não era fácil devido ao histórico, das lembranças, de memórias amargas sobre episódios de abuso de poder policial. Todos sabem disso", disse o presidente da Rio de Paz. O projeto de pacificação no Rio completa cinco anos nesta quinta.

Policiais são atacados por bandidos na Favela do MandelaOsvaldo Praddo / Agência O Dia

Ainda de acordo com ele, a comunidade está exposta a condições precárias de saúde devido a existência de dois rios que cortam a favela, esgoto a céu aberto e a presença de ratos e todo o tipo de insetos. "Os moradores querem o Estado em sua plenitude", concluiu.

Sob um clima de tensão, policiais da Divisão de Homicídios (DH) periciaram o local e assumiram as investigações. Após a saída da especializada, moradores da Favela do Mandela II fecharam a Rua Leopoldo Bulhões. Para impedir a aproximação de PMs da UPP que estavam concentrados no acesso à Mandela III, eles dispararam morteiros em plena via. Explosões de granadas também foram ouvidas no interior da comunidade. Traficantes fizeram disparos da Favela de Manguinhos para impedir o avanço e a repressão da polícia ao protesto. Motoristas, mais uma vez, tiveram que volta na contramão. Não houve confronto nem feridos.
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Outro protesto contra uma ação da PM provocou confusão no início da noite desta quarta-feira. Revoltados contra uma abordagem de policiais da UPP do Caju a dois suspeitos que acabaram baleados nas pernas, moradores do Parque Alegria, no Caju, na Zona Portuária, protestaram e chegaram a fechar uma das pistas da Avenida Brasil. O Batalhão de Choque foi chamado, mas um veículo chegou a ser incendiado na Linha Vermelha. O motorista ficou ferido.
PMs de Manguinhos foram indiciados por morte de jovem
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Em novembro deste ano, cinco policiais da UPP de Manguinhos, vizinha a Mandela, foram indiciados pela morte de Paulo Roberto Pinho de Menezes, de 18 anos, na madrugada de 17 de outubro. Na ocasião, a Coordenadoria de Polícia Pacificadora (CPP) afirmou que a vítima tinha consumido drogas e desmaiado durante numa abordagem da PM. O Lauda da Polícia Civil, no entanto, mostrou que Paulo foi vítima de asfixia mecânica.