Por felipe.martins

Rio - A preocupação em economizar água parece já ter sido esquecida pelos cariocas cinco meses após os pedidos pelo uso racional e da ameaça de racionamento. Torneiras abertas e pessoas lavando calçadas com mangueiras voltaram a fazer parte da paisagem da cidade. Segundo a Cedae, o consumo de água no Rio de Janeiro voltou aos mesmos níveis de antes da campanha pulicitária, lançada em fevereiro, que chegou a reduzir de 5% a 7% o consumo. O dado é preocupante porque os níveis dos reservatórios do sistema Paraíba do Sul, que abastece a Região Metropolitana, estão mais baixos do que em igual período do ano passado.

Cenas de desperdício de água continuam comuns no Rio de Janeiro mesmo após a crise hídrica assustar a população no fim do ano passadoMaira Coelho / Divulgação

Atualmente, a média do volume útil das quatro represas — Paraibuna, Santa Branca, Jaguari e Funil — somam 13,85%, contra 28,5% em julho do ano passado, segundo a bióloga Vera Lúcia Teixeira, vice-presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do Médio Paraíba do Sul. Com isso, as represas estão prestes alcançar o chamado volume morto, ou seja, nível em que as hidrelétricas são automaticamente desligadas porque a água não é suficiente para girar as turbinas.

“A falta de planejamento e a escassez de chuvas dos últimos meses contribuíram para que o nível do rio atingisse a pior média para esta época do ano. Vamos começar a sentir os efeitos entre o fim de agosto e o início de setembro, quando o volume morto deve ser atingido. Isso é um fato”, afirmou ela.

Segundo Vera, nada foi feito nos últimos 12 meses. “Podemos ter uma crise de água pior do que a de 2014. A vazão do Rio Paraíba do Sul está muito baixa, sai mais água do que entra. Estamos explorando um recurso sem preservá-lo”, destacou ela, acrescentando que as campanhas de conscientização têm de voltar. “Se no ano passado, já atingimos o volume morto com praticamente o dobro da quantidade nos reservatórios, imagine esse ano. Cada gota economizada nesse processo é de suma importância”, observou.

Veja os níveis dos reservatórios no RioArte%3A O Dia

Em uma ronda pela cidade, a equipe do DIA presenciou algumas cenas de desperdício. Na Rua Dias da Cruz, no Méier, uma mulher lavava a calçada com mangueira. A moradora que não quis se identificar e se desculpou que, se deixasse o local sujo, poderia ser multada pela prefeitura. “Moro em uma vila, se estiver com sujeira aqui, a prefeitura multa. Se jogar água para limpar é desperdício”. Segundo a prefeitura, não procede a desculpa e não há multas a prédios e casas por não fazerem a limpeza das calçadas.

A Cedae informou que acompanha o nível dos reservatórios e que estuda se há necessidade de nova campanha de conscientização para o uso racional de água e qual linguagem deverá ser usada.

Secretaria nega riscos

A Secretaria Estadual do Ambiente, no entanto, rechaça o risco de desabastecimento. De acordo com o órgão, para poupar os reservatórios foram adaptados os sistemas de vários municípios que captam água do Rio Paraíba do Sul e da Estação de Tratamento do Guandu. Além disso, indústrias na foz do Rio Guandu e no Canal de São Francisco também reduziram a captação. “Estas adaptações permitiram que a entrega de água no Rio Paraíba do Sul, em Santa Cecília, diminuísse progressivamente de 190 metros cúbicos por segundo de vazão mínima, em tempos normais, para uma vazão média de 135 metros cúbicos por segundo, no regime de exceção que estamos vivendo desde maio de 2014”, informou em nota.

A secretaria informou ainda que a Bacia do Rio Paraíba do Sul e a Região Sudeste em geral estão vivendo a pior estiagem dos últimos 84 anos, com uma estação chuvosa do período 2014/2015 muito abaixo das médias históricas.

“Se não fosse por esta economia de água estocada nos reservatórios, os volumes úteis já teriam se esgotado. Não existe nenhuma expectativa de que o volume morto seja atingido em agosto ou em setembro de 2015”, afirma ainda a nota.

Além da Região Metropolitana do Rio, os quatro reservatórios do sistema do Paraíba do Sul atendem também a 19 municípios do Médio Paraíba, abastecendo cerca de 13,5 milhões de pessoas. O Paraibuna sozinho, com capacidade para 5,9 hectômetros cúbicos de água, está operando com 5,82% de seu volume útil. Em janeiro deste ano, ele alcançou o volume morto pela primeira vez em sua história, quando passou quase 20 dias abaixo do nível de geração de energia elétrica.

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