Rio - O jeitinho brasileiro fez escola no Rio de Janeiro. É que até na crise econômica o carioca descobriu uma maneira de se dar bem. Para economizar em tempos de vacas magras com dólar, inflação e juros nas alturas, moradores adotaram medidas que melhoram a saúde e a forma física. Muitos trocaram o carro por bicicleta ou caminhadas; refeições fora de casa por marmitas e cortaram supérfluos no supermercado. O novo comportamento deu novas formas ao corpo e ao orçamento familiar.
A onda abrange todas as classes. O presidente da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), Eduardo Eugenio Gouvêa Vieira, revela que passou a deixar o carro na garagem e eventualmente costuma ir de bicicleta de sua casa para o trabalho. Assim, ele percorre uma distância de 21 quilômetros. “Gasto cerca de 40 minutos. Me ajuda a manter o peso e me desestressa”, atesta Eduardo, que economiza no combustível e no estacionamento. Ele comenta que parentes e amigos estão seguindo seu exemplo. Um deles, virou triatleta. “Estou orgulhoso”, comenta o empresário.
Neta do medalhista de bronze no basquete nas Olimpíadas de Londres em 1948, Marcus Vinícius Dias, e filha de pai surfista, a advogada Jade Soares Dias, de 28 anos, está feliz com a silhueta mais esbelta que ganhou. Aliado a isso, ainda fez render o dinheiro na carteira. Comprou uma bicicleta e passou a levar marmitex para o trabalho, em Botafogo.
“Estou economizando pelo menos R$ 540 por mês, desde que abri mão de almoçar em restaurantes. Sempre tive dificuldade para chegar a um peso ideal e agora estou no caminho certo”, conta. Jade, que acabou influenciando outras amigas, como a engenheira naval, Fernanda Roale, 25 anos. “Ela me encorajou a trazer almoço e lanche. Estou me alimentando melhor”, diz Fernanda animada.
Nas compras, a exclusão de alguns itens caros da lista também tem feito a diferença no bolso e contribuído para a melhoria da saúde. A camareira Kátia Porto, 42, se surpreendeu com a economia mensal ao resistir à tentação de levar chocolates, sorvetes, bacon, enlatados, entre outros produtos para a casa.
“São itens que aumentam o colesterol ruim. Sem eles, eu e minha família estamos nos livrando de problemas cardiovasculares futuros, e ainda economizando pelo menos R$ 150 a cada 30 dias”, ressalta ela, que, ao invés de ir todas as semanas ao supermercado, tem ido apenas uma vez ao mês.
Cíntia Senna, educadora financeira da Programa Diagnosticar, Sonhar, Orçar e Poupar, no portal da organização (www.dsop.com.br), dá dicas. “É bom começar cortes pelos chamados gastos invisíveis, que parecem insignificantes, mas representam rombos. É possível economizar até 30% dando a mesma atenção aos gastos invisíveis quanto aos grandes gastos, como luz, água, telefone, casa e carro”, ensina.
Boêmio diz que, agora, bebe menos e pedala mais
Adeptos da boemia carioca também adotaram medidas mais saudáveis, segundo médicos. Um deles é o fotógrafoEduardo Sarmento. Ele conta que teve que reduzir o ritmo da vida noturna e passou a ingerir menos bebidas alcóolicas.
Frequentador quase diário das madrugadas no Galeto Sat’s, em Copacabana, Sarmento garante ter trocado o balcão pelo pedal em alguns dias da semana. “Aproveitei para cuidar um pouco da saúde. Agora, alterno entre a boemia e a vida saudável, pedalando no Aterro do Flamengo, por exemplo”, explica.
Segundo especialistas, “crise não é coisa que se desperdice.” Ou seja, as pessoas devem pensar em tirar proveito de fases ruins da economia. “O que uma crise traz? De ruim, ela baixa um clima de incertezas e inseguranças. Mas, de bom, desperta um clima de urgências ou emergências que pode impulsionar potenciais em diversos setores, incluindo a saúde”, diz o jornalista e consultor de economia Alex Campos.
Ainda conforme especialistas, a volta da inflação e desemprego, sobretudo, têm levado famílias a buscar orientações sobre novos hábitos financeiros e psicológicos.
Qualidade: Conservar alimentos corretamente até a hora de comer
A nutróloga Tamara Mazaracki, da Associação Brasileira de Nutrologia, cita vantagens de marmitas no trabalho. “Além da questão econômica, pode-se escolher os alimentos e ingredientes com melhor qualidade nutricional, reduzindo o teor calórico, e a ingestão de sódio (sal) e de gorduras trans oxidadas, reutilizados nos restaurantes”, diz Tamara.
Outra vantagem: “na marmita a pessoa leva exatamente o que vai comer e não corre o risco de cair em tentação com as variedades oferecidas nos restaurantes, como massas, empanados, frituras e doces, que contêm altas calorias”, justifica.
Mas a nutróloga alerta: “é muito importante usar sempre alimentos frescos e conservar o recipiente de forma correta até a hora de comer. Coloque a marmita na geladeira para evitar que os alimentos estraguem com a proliferação de micro-organismos , causadores de problemas digestivos e infecção intestinal. Evite molhos preparados com maionese, pois ela se deteriora com muita facilidade”, aconselha.
Para compor a marmita, ela sugere saladas e legumes cozidos (50% do volume), temperadas com azeite, vinagre, sal e ervas. “Para sobremesa e lanche, uma fruta, um pedaço de queijo, um iogurte, ou um punhado de sementes oleaginosas. São ótimas soluções.”
Em 2008, a Islândia virou notícia, depois que a população viu o País ir ao fundo do poço economicamente. Mesmo assim, os moradores, na época, decidiram adotar novos hábitos diários, mais saudáveis, voltados para a melhoria da saúde. E conseguiram.
Andar de bicicleta remove LDL mais rápido
O cardiologista Cláudio Castro elogia a iniciativa de quem troca a vida sedentária por atividades físicas com custos bem baixos, mas adverte: antes de sair por aí pedalando, caminhando ou correndo, é preciso consultar um médico. “É necessário que o cidadão tenha a real noção do esforço que pode fazer, para evitar problemas sérios de saúde, como graves danos às articulações das pernas e até mesmo infarto”, explica.
Segundo pesquisa do Laboratório de Metabolismo de Lípides do Instituto do Coração (incor), andar de bicicleta periodicamente, como Eduardo Eugênio Gouvêa Vieira, remove o LDL (colesterol ruim) cinco vezes mais rápido do sangue.
“Atividades físicas, como pedalar, reduzem a pressão alta, sobrepeso e o risco de diabetes. Controlam o colesterol e dão mais disposição para o lazer e trabalho. O indivíduo dorme melhor e se afasta da depressão”, assegura o médico Ricardo Nahas, diretor da Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte.




