Opinião

Roberto Muylaert: Falência múltipla dos órgãos

São muitos anos de abuso contra os interesses do país, por meio de decisões erradas, privilégios descabidos e corrupção generalizada

Rio - Acontece quando a doença circunscrita a alguns órgãos do corpo se espalha por outros, a ponto de fazer com que o complexo e inteligente sistema de funcionamento do organismo entre em colapso. Um país não possui órgãos como o corpo humano, mas tem uma interdependência entre instituições e autoridades que, em conjunto, fazem o organismo dos governos funcionar em harmonia, como rege a Constituição.

No caso do Brasil não é exagero dizer que o país está sofrendo de uma falência múltipla de órgãos. São muitos anos de abuso contra os interesses do país, por meio de decisões erradas, privilégios descabidos e corrupção generalizada. A verdade é que, para qualquer lado a que se olhe, descobre-se um país deteriorado, e a partir da notícia do dia surgem ligações com outras mazelas fáceis de detectar.

Só para ficar nos problemas macro, é claro que a Educação precária, mais os problemas de um atendimento falho na Saúde, estão na base das mazelas que vitimam a sociedade, muito embora as elites, com todas as facilidades dos recursos de que dispõem, tenham um grau de ignorância e prepotência nada desprezíveis.

Parece claro que o tamanho do governo a sugar recursos é outra causa clara dos nossos problemas, agravado por privilégios e garantias para quem ocupa cargo público, ou é alto funcionário de carreira. Alguém que pode, por exemplo, deixar de comparecer a seu plantão na emergência de um hospital público, sem que o emprego corra risco.

O sintoma da semana é o motim dos presos em Manaus, resultando numa chacina que o governador local definiu como “problema dos estupradores e matadores que estavam lá dentro”, como se a responsabilidade não fosse dele próprio e da irregularidade na contratação de uma empresa privada.

A partir daí é fácil prever que o sistema prisional brasileiro entrará em colapso, como aconteceu de novo em Boa Vista. Mas o sistema viciado vem de cima.

Para um exemplo das vantagens a beneficiar as altas esferas, basta citar o foro privilegiado de ministros e deputados, que dependem de autorização do Supremo Tribunal Federal para poder ser presos: os políticos ficam na espera de que o Supremo libere seu acerto de contas com a Justiça, e quanto mais tempo melhor. Cadeia já é para quem não tem foro privilegiado.

Roberto Muylaert é editor e jornalista

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