Opinião

Nelson Vasconcelos: Dinheiro de sobra não sobra

Jornalista mostra como sobras de campanha costumam ser reaproveitadas em benefício pessoal dos candidatos

Rio - Haveria muitos motivos para recomendar ‘Tancredo Neves, o príncipe civil’, do jornalista Plínio Fraga. É um baita livro, obrigatório, sobretudo quando vemos a sociedade flertar com fascistas, ditaduras e esquisitices afins.

Mas vou falar aqui somente sobre o capítulo ‘Dinheiro de sobra não sobra’, onde Plínio mostra como sobras de campanha costumam ser reaproveitadas em benefício pessoal dos candidatos. E sempre envolvendo uma construtora ou outra, veja você.

A lista é encabeçada pelo marechal Eurico Gaspar Dutra, eleito em 1945. A primeira-dama, Carmela Dutra, exigiu que o dinheiro fosse usado na construção de uma capela no Palácio Guanabara.

Não fizeram por menos, esbanjando mármore belga e português. “Um presente do casal Dutra ao povo brasileiro”, disse a santa senhora, que já tinha conseguido a proibição do jogo e a ilegalidade dos partidos comunistas. Quem manda, afinal? Lá em casa não é muito diferente.

Juscelino Kubitschek, claro, também foi acusado de ter sido ilegalmente financiado por construtoras e bancos, entre outras empresas de olho grande em Brasília. Jânio foi outro que passou por acusações do tipo. Sem falar nos US$ 52 milhões da sobra de campanha do Fernando Collor, do total de US$ 120 milhões em contribuições. Onde foi parar isso tudo?

Portanto, parece claro que não foi muito diferente com o Tancredo. Sua campanha à presidência foi “rica e pujante”, contando com especial atenção da construtora Camargo Corrêa e da Gerdau. Não faltaram acusações, investigações e, claro, tudo virou história.

E as sobras da campanha? Calcula-se, em valores de hoje, algo em torno de US$ 10 milhões. Por orientação de Tancredo, a grana teria que ficar no PMDB, aos cuidados do seu homem de confiança, Hélio Garcia — que foi governador de Minas, entre tantas funções respeitáveis. Assim foi feito. E aí vieram a doença, a morte, o enterro do presidente que não chegou nem a tomar posse.

Depois do calvário do pai, Tancredo Augusto procurou Hélio Garcia, a ver o que poderia ser feito com a grana. Hélio não quis prestar conta. Ficou por isso mesmo. Resumo da história, segundo Tancredo Augusto: “Eu mandei ele à puta que pariu”. Ótima história, deveras exemplar.

A propósito, o inventário dos bens de Tancredo Neves chegaria a R$ 3,2 milhões, em valores de hoje, atualizados pela inflação. Nesse bolo, entretanto, havia muitos imóveis, que valeriam R$ 22,7 milhões hoje, segundo o mercado.

Nelson Vasconcelos é jornalista

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