Caboclo novo na área

Manoelzinho Motta armava as maiores barafundas para brincar o Carnaval

Por Luiz Antonio Simas, escritor e historiador

opinião 9 janeiro 2019
opinião 9 janeiro 2019 -

Quando eu era garoto conheci um sujeito, o Manoelzinho Motta, que armava as maiores barafundas para brincar o Carnaval.

Numa ocasião, Dona Alcione, a esposa, convenceu o Manoelzinho a passar o carnaval em Araruama, numa casinha de praia rateada pelas amigas do Lins de Vasconcelos para curtir um sol e fazer torneios de buraco, com comes e bebes, durante o período momesco.

Manoelzinho mostrou entusiasmo com a programação. Ninguém entendeu direito. O homem era sócio do Bola Preta, compadre do Tião Maria - o fundador do Bafo da Onça -, participante do Berro da Paulistinha e organizador, ao lado do zagueiro Moisés Xerife, do bloco das piranhas de Madureira. Como se não bastasse, fechava a quarta-feira de cinzas brigando com a polícia durante o desfile do Chave de Ouro.

Uma emocionada Dona Alcione ouviu o marido argumentar a favor da ideia de que numa relação de companheirismo era necessário abrir mão de algumas coisas em nome de outras mais importantes. Em tom de discurso, Manoelzinho encerrou o assunto em grande estilo: Alcione significa mais para mim do que o Carnaval. Vou pra Araruama.

Acontece que é difícil controlar algumas espiritualidades. Na hora da partida, com as malas preparadas, o Caladril, o Vic Vaporubi, a Minâncora e o sal de frutas Eno formando linha de frente da sacolinha de remédios, Manoelzinho deu murros no peito, um brado de levantar defunto e caiu de joelhos na posição de um índio preparado para flechar alguém. Recebeu um caboclo.

Assim que o caboclo chegou, todos estenderam as mãos espalmadas à frente e abaixaram a cabeça em forma de reverência. A entidade indígena continuou gritando por uns cinco minutos. A fila de gente para tomar passes se formou e os palpites sobre que caboclo era aquele começaram: Tupiara, Tupaíba, Aimoré, Caboclo Roxo, Sete Flechas, Cachoeirinha, Tupinambá, Caboclo Lírio, Junco Verde, Rompe Mato, Sultão das Matas, Mata Virgem, Cobra Coral.

Um camarada, cumprindo as funções de cambono, aproximou-se do índio e fez a pergunta: "O senhor quer dizer a sua graça aos filhos de Zâmbi? Quer riscar ponto com a pemba de fé?".

O caboclo murmurou algo no ouvido do cambono, que anunciou ao povo: "Ele disse que se chama Seu Cacique de Ramos".

Na mesma hora o índio deu um berro, começou rodopiar feito doido, dando flechadas imaginárias em todo mundo e riscando o chão. Alguém sugeriu cantar um ponto para a entidade. Mas qual? Uma voz desconhecida mandou de prima um ponto do Luiz Carlos da Vila: "Sim, é o Seu Cacique de Ramos/ Planta onde em todos os ramos/ Cantam os passarinhos da manhã". O caboclo gostou.

Dona Alcione, nessa altura do campeonato, só queria que o índio fosse oló para retomar os planos do Carnaval em Araruama.

A entidade, então, pediu silêncio e anunciou: "Caboclo só vai deixar cavalo na quarta-feira de cinzas. Num sobe antes, que caboclo vai salvar seus filho de Aruanda e trazer axé de pemba no carnaval. Mulé de cavalo vai viajar, que caboclo não quer ninguém triste. Caboclo fica nas encruzas. E caboclo quer cocar e tanga!".

Seu Cacique de Ramos percorreu no carnaval mil e duzentas esquinas cariocas com a pemba de fé - de cocar e tanga em vermelho, preto e branco. Bebeu marafo e cerveja, comeu feijoada para louvar Seu Ogum Beira Mar, fumou charuto e bateu o recorde de passes em toda a história da Aruanda. Foi oló na quarta feira de cinzas, depois de cumprir com êxito a sua missão de paz na terra aos foliões de boa vontade.

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