Rio - Faltam 12 dias para que as escolas do Grupo Especial façam a sua reestreia na Passarela do Samba, na Marquês de Sapucaí. Há 28 anos, as agremiações também pisavam pela primeira vez no Sambódromo, como ficou popularmente conhecido. A obra encomendada pelo então governador Leonel Brizola ao arquiteto Oscar Niemeyer acabou com a montagem e desmontagem das arquibancadas a cada desfile. A estrutura majestosa do novo palco do samba foi erguida em apenas quatro meses — a obra atual de ampliação já dura dez. Arquibancadas altas causaram revolução no modo de se fazer Carnaval na Avenida.
Escolas como Beija-Flor, em 2010, levam carros gigantes à Avenida | Foto: Carlos Moraes / Agência O Dia
“O público começou a ver o desfile do alto. As escolas tiveram que subir os carros alegóricos. O visual passou a ter mais destaque do que o próprio samba”, conta o historiador Hiram Araújo. Era o início de uma nova era marcada pelo luxo e grandiosidade das alegorias e carros luminosos feitos para serem vistos a distância pelo público.
Artistas remunerados
Artistas do samba, como mestres-sala e carnavalescos, passaram a ser remunerados, e as escolas, a lucrar o ano todo, com a transmissão de desfiles, venda de ingressos e cobrança nos ensaios em suas quadras. Os desfiles com até cinco mil componentes foram divididos no domingo e segunda-feira.
Em 1989, Joãosinho Trinta causa polêmica com o enredo ‘Ratos e urubus larguem minha fantasia’, sobre o lixo que se torna luxo. No carro abre-alas, uma escultura coberta por sacos de lixo escondia um Cristo Redentor mendigo, que fora proibido pela Igreja Católica, uma imagem que ficou até hoje na memória dos brasileiros.
Dez anos depois, a Imperatriz Leopoldinense conquista o primeiro tricampeonato com a carnavalesca Rosa Magalhães, que se consagra como a maior campeã do Sambódromo, levando cinco títulos.
Desfiles cada vez mais apoteóticos levavam o público ao delírio. Em 1988, a Vila Isabel leva o título com ‘Kizomba — Festa da Raça’. Cinco anos depois, o Salgueiro explode o coração dos foliões com um Carnaval memorável. A última década no Sambódromo é marcada pelas críticas às inovações de Paulo Barros e suas ‘alegorias vivas’, iniciadas com o carro do DNA, na Unidos da Tijuca, com comissões de frente de perder a cabeça ou mudar de roupa num passe de mágica. “Pensei em mudar meu estilo. Mas desisti. Acredito no que eu faço. Se fizesse isso, estaria me corrompendo”, diz Barros, campeão pela Tijuca, em 2010.
Futuro será da tecnologia e do patrocínio
Oito décadas após o primeiro desfile, carnavalescos e sambistas divergem quanto ao futuro do Carnaval. Um espetáculo visto por 2 bilhões de pessoas e mantido por uma indústria que gera 200 mil postos de trabalho e movimenta R$ 1,2 bilhão. “Hoje o sambista não tem vez. Qualquer empresa compra um enredo de escola”, critica o compositor Hélio Turco, da Mangueira. Para o coreógrafo Carlinhos de Jesus os desfiles vão sobreviver. “Será mais organizado, com maior adesão do governo e participação popular”, aposta.
Paulo Barros também se diz otimista. “Vai continuar como é, cheio de energia e com a tecnologia nos dando condições de executar o Carnaval com muito mais facilidade”, prevê o carnavalesco da Unidos da Tijuca, que diz como gostaria de ser lembrado daqui a 50 anos. “Como alguém que amou o que fez e se dedicou a fazer um Carnaval com alegria para divertir o público”, diz.







