Rio -
Desde que contei o procedimento (operação, para os antigos) no Sírio-Libanês, o telefone não parou. A crônica terminou com minha entrada no hospital anunciando que continuaria hoje. O pessoal entendeu que eu praticamente estava com o pé na cova. Então vou contar tudo e depois não se fala mais nisso, tá? Resumindo: os médicos disseram que eu tinha que extirpar o quanto antes tumores que boiavam na minha cirrose. Caso contrário, eu não duraria um mês. Me internei, ou melhor, me hospedei, porque parece um hotel 5 estrelas. Ocupa um quarteirão, todo iluminado dia e noite. Lá trabalham 3.200 pessoas. E não tem a chamada “comida de hospital”. No restaurante, o serviço é a la carte, só não tem carta de vinhos, é claro. Adorei a cama com controle remoto, só falta cantar nana neném.
Ah, sim o tal procedimento: meu corpinho continua sem nenhum furo, exceto os de nascença. Enfiaram numa artéria um cateter que vai até o fígado e cauteriza os tumores. Para resumir: estou com uma ponte de safena, só que hepática. Quando tive alta, fomos almoçar num restaurante, com direito à presença de Maluf, na mesa ao lado. Pediu ao garçom o prato do dia: robalo. Daqui pra frente, álcool zero. “O homem se acostuma com tudo” (Dostoievski e Woody Allen).
O problema não é deixar o álcool, é o álcool me deixar. Ninguém acredita que parei de beber, principalmente os garçons. Disse anteriormente que já sorvi uma piscina olímpica. Exagero. Refiz as contas (os números estão no Google) e constatei que bebi, em 62 anos (dos 18 aos 80), 11 caminhões-pipas de cerveja, além dos destilados e fermentados. E agora? Beber o quê? Achei tudo enjoativo, do guaraná a cerveja sem álcool. Ironia do destino: a melhor coisa que descobri foi uma coisa que raramente tinha bebido depois de adulto: água.
Para minhas insônias, costumo engolir antes de deitar um comprimido de Stilnox. Agora, troquei por um sonífero muito mais poderoso: o replay do jogo da nossa seleção olímpica 3 contra o Egito 2, gols de Ramsés e Tutankamon.


