Rio -  Possibilitar a todo mundo que chega a vivência e a sensação de ser carioca. Eis o que parece ser uma vocação do Rio e particularmente do “bairro das quatro letras (…), o ponto maior do mapa”, como definiram os compositores Herivelto Martins e Benedito Lacerda em sua parceria ‘A Lapa’, na década de 50. Uma sensação ingênua e espontânea de quem ‘aportou’ no Rio em fevereiro e não perde o encantamento, especialmente com a ‘memória’ de tantas coisas, impressas na paisagem humana, na moldura dos arcos, por exemplo. “Todo moreno quando passa pode estar sambando”, diz o poeta (daqui) Paulo Cesar Pinheiro! O Carnaval é a verdadeira apoteose dessa atmosfera! Hoje, os blocos democraticamente espalhados por todos os cantos arrastam no mínimo todos os olhares e trazem à baila os grande clássicos do Carnaval, marchinhas seculares, sambas, todos na boca do povo. Sim, a música, ela é a grande rainha. E para ela, e através dela, é que se configura a grande festa do Carnaval, ou deveria ser. E eis também uma grande vocação da Lapa.

Os tempos são difíceis pra cultura, e a maior representante de nossa identidade cultural, a música, lá também agoniza muitas vezes, mas vocação não muda, e este ano respirou com iniciativas que abandonaram o descrédito e partiram pra ação séria e bem articulada, superando os anos anteriores. O renascimento poderoso do Carnaval de rua, em que todos são protagonistas da festa e onde a “maioria silenciosa berra no Carnaval ‘di grátis’” — como brada o agitador cultural Perfeito Fortuna —, é um fenômeno que se consagrou com o festival Lapa Mundi. Ele foi festejado na Praça Cardeal Câmara, nos Arcos da Lapa, onde as obras foram aceleradas para receber o Rio Marchinhas, palco comandado pela Fundição Progresso com quatro dias de atrações gratuitas no Carnaval. Mais uma alternativa para o Carnaval da Sapucaí, nossa festa popular é inesgotável.

Nesses dias de folia, a Lapa confirmou sua vocação como anfitriã da cultura popular da cidade e do Brasil, afirmando-se também como o ponto mais internacional do País, recebendo arco-íris cultural de formas, idades, sotaques, tribos, exaltando sempre nossa cultura: “Canta tua aldeia e serás universal”. O processo de revitalização parece estar sempre se reeditando: do ponto de vista de quem chega e de quem trabalha no ‘bairro boêmio’, vive suas dificuldades e seu charme, herdado da história artística e social do que ali foi construído. “A Lapa está voltando a ser a Lapa…”, como versaram há cerca de 60 anos.

Nina Wirtti é cantora revelação da Lapa, ao lado do grupo Regional Nacional