Rio -  O bom cantor é aquele de quem o povo canta as músicas. O bom compositor, também. Assim era o Wando: o Brasil perdeu um ótimo compositor, porque o povo cantou diversas músicas dele, e um ótimo cantor, porque o povo se divertia, sorria nos shows dele. E era um cidadão de bem, porque ninguém ouviu falar de Wando com falcatruas. Era leal, alegre, sincero, cumprimentava os amigos com beijos. Eu conhecia o Wando há anos. Nunca tivemos intimidade, mas trabalhamos juntos algumas vezes.

O que as músicas do Wando têm de melhor é o mesmo que tem nas minhas, nas do Roberto Carlos, do Zezé Di Camargo: são narrações de amores, incompreendidos ou compreendidos. Desde o começo do mundo, o tema forte foi e sempre será o amor, os encontros e desencontros. De vez em quando, fazem sucesso músicas para pular e rir, mas não é isso que fica. Há um ano, era “vou não, quero não, posso não”. Foi uma onda que passou. Agora tem “ai, se eu te pego...” O que é válido, porque o povo tem que divertir. Mas o que fica é: “Por que me arrasto aos seus pés? Por que me dou tanto assim?”. O que fica é: “É o amor / que mexe com minha cabeça e me deixa assim”. O que ele cantava, o que ele compunha, é o grande tema.

O Frank Sinatra cantava “just forgive me” (apenas me perdoe). Os franceses faziam um drama, “ne me quittes pas” (não me abandone). Por que só em português a música que fala de amor é brega, diminuta? Tem essa coisa hipócrita que a gente vive. Venho de escola superior, estudei Engenharia. A gente via filmes de Antonioni, Fellini, Bertolucci, mas o que a gente gostava mesmo era de John Wayne e a cavalaria. Quando o chifre dói, o diploma cai da parede.

São vidas de casais normais, toda a sociedade passa por isso: quando dá ciúme, o cara vai atrás da mulher para ver se ela foi mesmo para o dentista, a mulher vai atrás ver se ele foi mesmo jogar pôquer com os amigos. E quem faz isso é operário, gari, prefeito, desembargador, juiz.

Quando o cara morre, todo mundo se revela: “Ele era brega, mas ele era bacana”. Prefiro que digam isso enquanto estou vivo. Mas que o Wando teve reconhecimento em vida, teve sim: a TV o prestigiou, ele foi chamado a diversos programas, todo mundo conhecia as músicas dele. Fiz um CD chamado ‘O Melhor do Brega’, em que gravei ‘Fogo e Paixão’, que eu canto em todo show. É ótimo: você abre a boca e o povo canta junto. Você pode até desafinar, que ninguém ouve.

Reginaldo Rossi, cantor, em depoimento a Kamille Viola