Rio -  Enquanto uma longa fila em busca de emprego se forma no Batan logo no início da manhã, moradores do Pavão-Pavãozinho se preparam para mais um dia de trabalho. Com índice de desemprego inferior ao da França, a favela da Zona Sul exemplifica como a cidade partida está muito além da divisão entre morro e asfalto.

Pesquisa da Firjan em 16 áreas pacificadas mostra que as diferenças entre comunidades se acentuam à medida que se afastam do litoral. De acordo com o estudo, a renda per capita das favelas da Zona Sul chega a R$ 644. Já na Zona Norte, a média é 34,4% menor: R$ 422.

“Se os moradores de comunidades da Zona Sul já convivem com diversos dificuldades, para os das zonas Norte e Oeste é pior ainda. Há um abismo enorme”, comenta a gerente de Pesquisas e Estatística do Sistema Firjan, Hilda Alves.

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Clique para ver infográfico com índices de emprego e desemprego nas UPPs | Arte: O Dia

Empreendedorismo

No Pavão-Pavãozinho, a mais alta renda per capita (R$ 755), sobram histórias de superação por melhor qualidade de vida. Nascida em Tamboril, no Ceará, Antônia de Souza Carvalho, 36, chegou à favela no início da década, trazendo o sonho de ter seu próprio comércio. Começou vendendo roupas de porta em porta.

Foto: Márcio Mercante / Agência O Dia
De porta em porta, Antônia juntou dinheiro vendendo roupa no Pavão-
Pavãozinho e hoje tem sua loja | Foto: Márcio Mercante / Agência O Dia

Nos últimos nove anos juntou R$ 30 mil e há quatro meses abriu a loja RDR Modas, numa viela da comunidade. “Hoje, o que eu ganho dá para viver muito bem com meu marido e três filhos”, garante Antônia, que já conquistou ‘mimos’ como TV de LCD, ar-condicionado e móveis de qualidade.

A pesquisa aponta que um a cada cinco moradores do Batan, em Realengo, está desempregado. Já no Pavão-Pavãozinho, comunidade pacificada com melhor qualidade de vida, apenas 5% dos habitantes procuram trabalho. O índice é melhor que o da Região Metropolitana do Rio (5,2%), de São Paulo (6,2), do Brasil (6,7), da Argentina (7,7%) e até da França (9,4%).

Distância, um entrave para o Batan

Nascido e criado no Batan, José Gonçalves, 47, está há dez anos sem carteira assinada. Ele conta que, com ‘bicos’, consegue um salário mínimo por mês. “Morar longe do Centro dificulta. Ninguém quer funcionário que chega atrasado por causa de engarrafamento. Fora a idade e escolaridade”, conta José, que estudou até a 4ª série.

A falta de oportunidade pode se transformar em força. Depois de ver a fábrica onde trabalhava como costureira fechar, na Praça da Bandeira, Edna Paranhos, 60 anos, investiu em maquinário.

Ela transformou sua casa, no Batan, em uma confecção. “Faço tudo sozinha: compro material, corto, costuro e vendo. Consigo por mês mais do que ganhava na confecção”, comemora.

Mais estudo na Zona Sul que em outras UPPs

Os morros da Zona Sul também se destacam em escolaridade. No Pavão-Pavãozinho, 58,8% dos jovens de 15 a 24 anos conciliam estudo com o ofício ou apenas trabalham. Enquanto a favela apresenta o melhor índice entre as áreas analisadas, o Batan está na lanterna: 32,7%.

O clima de paz no Pavão-Pavãozinho facilita a concentração nos estudos e ajuda a nova geração a aumentar a média de escolaridade. As amigas Leandra de Souza Moraes e Lais Alves da Silva, ambas de 15 anos, planejam fazer faculdade e superar os 5,9 anos de estudos da média dos adultos de lá.

Foto: Paulo Alvadia / Agência O Dia
No Batan, fila para conseguir emprego se forma logo cedo. Favela da Z. Oeste a taxa de desocupação é de 20%; no Pavão-Pavãozinho, é de 5% | Foto: Paulo Alvadia / Agência O Dia

“Quero fazer Engenharia ou Direito”, revela a dúvida Leandra, aluna do 6º ano do Ensino Fundamental, que gosta de estudar na varanda com vista para o mar. “Sem dúvida, o rendimento escolar delas é bem melhor estudando assim”, atesta Geovânia Souza, 31, mãe de Leandra.

A diferença entre as comunidades pode ser medida pelo consumo. O Pavão-Pavãozinho é a favela com mais TVs por assinatura nas casas (52,9%). No Batan, só 16,5% contam com o serviço. No Chapéu Mangueira, há celular na mão de quase todos: 92,2% têm.