Rio -  O cabo Benevenuto Daciolo, um dos líderes do movimento grevista do Corpo de Bombeiros, recebeu a visita da esposa, Cristiane, na tarde desta sexta-feira, no complexo penitenciário de Bangu, na Zona Oeste. Ele foi preso na noite da última quarta, ao desembarcar no aeroporto Internacional Tom Jobim, na Ilha. Ela afirmou que a conversa durou 15 minutos e contou com a presença de um agente penitenciário.

"Ele está numa situação deprimente, em um presídio de segurança máxima, onde estão presos bandidos de alta periculosidade. meu marido está numa cela de 4 metros quadrados e debilitado fisica e mentalmente. Tente elevar o moral dele", afirmou Cristiane.

'Fizeram essa prisão arbitrária', reclama esposa de bombeiro | Foto: Osvaldo Praddo / Agência O Dia
'Fizeram essa prisão arbitrária', reclama esposa de bombeiro | Foto: Osvaldo Praddo / Agência O Dia

"Eu não sei o motivo da minha prisão. Ainda não me disseram. Foram me buscar dentro do avião. Trata-se de mais uma arbitrariedade", disse Daciolo com exclusividade a O DIA.

O bombeiro explicou que voltava de Salvador, na Bahia, onde participou das negociações sobre a greve dos policiais militares. Ele foi encaminhado ao Quartel-General do Corpo de Bombeiros, no Centro do Rio, e depiois levado ao presídio de Bangu I.

A prisão de Daciolo foi pedido pela Governo do Estado, em virtude de escutas telefônicas divulgadas na noite desta sexta-feira, no Jornal Nacional da TV Globo. O cabo discutia com interlocutores as negociações sobre a grenve de PMs e Bombeiros que pode começar nesta sexta-feira.

A deputada Cidinha Campos (PDT) protocolou nesta sexta-feira, junto à Mesa Diretora da Alerj, representação contra a deputada Janira Rocha (PSOL) por quebra de decoro parlamentar, que pede a cassação de seu mandato.

Segundo o documento, a conduta de Janira no diálogo que manteve com o cabo bombeiro Benevenuto Daciolo foi no sentido de aliciar o militar à prática de motim conforme previsto no Artigo 154 do Código Penal Militar, bem como infringe o inciso IV do Artigo 7º do Código de Ética e Decoro Parlamentar.

A Polícia Militar divulgou na tarde desta sexta-feira, por meio de sua assessoria de imprensa, que pelo menos 145 PMs estão presos por conta da greve iniciada na noite desta quinta-feira. Desse montante, nove foram presos após ter mandado judicial expedido pedindo suas prisões, sete foram autuados em flagrante por desobediência e outros 129 policiais militares do 28º BPM (Volta Redonda) serão indiciados por cometimento de crime militar, eles estão presos administrativamente no próprio quartel.

Cabo João Carlos Gurgel (de azul) se entrega à polícia | Foto: Alexandre Vieira / Agência O Dia
Cabo João Carlos Gurgel (de azul) se entrega à polícia | Foto: Alexandre Vieira / Agência O Dia

Além isso, outros 14 policiais militares serão submetidos a processo administrativo disciplinar, quatro deles já tiveram suas prisões preventivas decretadas. A assessoria da PM não soube informar quantos desse grupo estão presos, o que pode aumentar o número de detidos. Outros dois policiais também tiveram mandado de prisão preventiva expedida, mas, ainda não foram localizados.

Também na tarde desta sexta-feira, o Corpo de Bombeiros informou que 123 guarda-vidas foram indiciados por falta ao serviço. Todos serão presos administrativamente. O Comandante do 2º Grupamento Marítimo (GMar) da Barra da Tijuca, Tenente Coronel Ronaldo Barros, foi exonerado do cargo.

Além disso, o comando-geral da corporação abriu Conselho de Disciplina para avaliar a conduta do cabo Benevenuto Daciolo, que já está preso em Bangu 1, além de 15 guarda-vidas representantes do movimento de greve. Também serão avaliadas as posturas do capitão Alexandre Marchesini e do major Márcio Garcia. O procedimento definirá as punições cabíveis aos envolvidos, podendo chegar à exclusão definitiva do Corpo de Bombeiros.

'Repressão pode ocasionar revolta'

A Justiça Militar expediu 11 mandados de prisão contra os principais líderes grevistas. Destes, nove já foram presos. "A repressão ao movimento pode ocasionar uma revolta tão grande que aí sim vai gerar um problema irreversível. O que gera tumulto é a falta de diálogo. Se eles começarem a prender todo mundo, vai ficar complicado", disse o cabo João Carlos Gurgel, um dos líderes preso.

O coronel Paulo Ricardo Paul também foi preso pela Corregedoria Interna da Polícia Militar por participação no movimento de greve dos policiais. Apesar de estar preso administrativamente, ele cumpre prisão no presídio Bangu 1, no Complexo de Gericinó. Paul, que está aposentado, já foi corregedor da Polícia Militar.

Foto: Severino Silva / Agência O Dia
Foto: Severino Silva / Agência O Dia

"Estamos sendo tratados como presos políticos, como traficantes. Somos pessoas que não temos uma folha corrida sem nenhum antecedente. Não podemos ficar presos nessa situação", disse o major PM Hélio Silva de Oliveira. De acordo com ele, o grupo está buscando apoio da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) para serem transferidos de Bangu 1.

Além deles, também estão presos os policiais Wagner Luiz da Fonseca e Silva, Adalberto de Souza Rabello, Carlos Antônio Oliveira de Aquino, Pablo Rafael Marques dos Santos, Alonsimar de Oliveira Pessanha, Wagner Jardim Hamud, Nilton Alves Neto e Vivian Sanches Gonçalves.

Segundo o porta-voz da PM, coronel Frederico Caldas, a situação na capital está controlada, no interior há registro de problemas em Campos dos Goytacazes e Volta Redonda.

"É inaceitável que policiais cruzem os braços. Os policiais que se recusaram a cumprir as normas foram presos por descumprimento, por crime de desobediência. Precisamos dizer para as pessoas que fiquem tranquilas. A situação da segurança está sob absoluto controle", disse ao

Policiais do 16º BPM (Olaria) gritavam palavras de ordem em frente ao batalhão | Foto: Osvaldo Praddo / Agência O Dia
Policiais do 16º BPM (Olaria) gritavam palavras de ordem em frente ao batalhão | Foto: Osvaldo Praddo / Agência O Dia

Por outro lado, representantes do movimento grevista afirmaram, em coletiva realizada nesta sexta-feira, que cerca de 200 policiais militares foram presos administrativamente em Barra do Piraí ao se recusarem a sair em patrulhamento. A informação foi negada pela assessoria da PM.

Policiais do Batalhão de Operações Especiais (Bope) seguem para Campos, no Norte Fluminense. "Houve uma recusa inicial dos policias de saírem nas viaturas alegando que não havia documentação. O Detran já está providenciando essa documentação", afirmou.

Comandante dos Bombeiros fala em dia normal

O secretário estadual de Defesa Civil e comandante do Corpo de Bombeiros do Rio, coronel Sérgio Simões, garantiu que a sexta-feira é um "dia normal" na corporação.

"A adesão é zero. Não houve adesão. O Corpo de Bombeiros em nenhuma hipótese pode fazer greve e deixar de atender a população. Não serão toleradas atitudes que maculem o nome da instituição. Posso afirmar que bombeiros e policiais militares estão hoje em padrões de normalidade e é muito importante que a população tenha esta cereteza. Hoje é um dia normal como todos os outros nos 150 anos de existência da corporação", disse Simões à GloboNews.

Em nota, a Polícia Civil informou que o atendimento nas delegacias policiais de todo o Estado está funcionando normalmente. A corporação informou ainda que informações dando conta da paralisação de algumas delegacias, como a 21ª (Bonsucesso), a 22ª (Penha) e a 42ª (Recreio), não procedem. Os delegados titulares dessas unidades estão a postos e garantem que elas estão operando regularmente.