Por gabriela.mattos

Rio - Enquanto o Ministério da Educação (MEC) adia o Enem daqueles que fariam a prova em instituições ocupadas, a visão dos ocupantes é bem clara: eles acusam o órgão de não se abrir ao diálogo. “O Tribunal Regional Eleitoral veio aqui, nós negociamos e falamos a proposta de fazer uma ocupação parcial. Foi tudo tranquilo nas eleições. Passamos essa mesma proposta para o MEC e não tivemos nenhuma resposta”, diz Luana*, de 18 anos, estudante da unidade Centro do Colégio Pedro II.

O DIA entrou no tradicional prédio de arquitetura neoclássica que abriga o colégio e ouviu as reivindicações dos estudantes. Dentro da escola desde o dia 26 de outubro, eles explicam que nunca tiveram o interesse de prejudicar os candidatos do Enem. “Nós somos um movimento que luta pela educação, não queremos interferir e prejudicar ninguém que tenha interesse em ter mais educação”, aponta Luana, que vai fazer o exame neste fim de semana.

Ela tem o aval da colega Luisa, de 17 anos, que também fará a prova. “Nossa ideia não é atacar o Enem, ninguém tem a ideia de querer prejudicar a comunidade. Mas a tentativa de diálogo foi só da nossa parte. É interesse deles jogar os estudantes contra os estudantes”, comenta.

Unidade do Pedro II no Centro está ocupadaAlexandre Brum / Agência O Dia

Em tempos de crise dos partidos políticos e de dificuldade de mobilização por parte dos movimentos sociais, os secundaristas aparecem como a oposição mais evidente ao governo de Michel Temer (PMDB). São contrários à Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 241, à reforma do Ensino Médio e ao projeto Escola Sem Partido.

"Eles querem congelar os investimentos públicos e não houve nenhum tipo de debate. Foi uma medida imposta por pessoas que não estudam em colégio público, que ganham salários absurdos, estudam em colégios incríveis, particulares, onde tudo funciona”, reforça Luisa, que critica as isenções fiscais a grandes empresas e igrejas.

No Escola Sem Partido, os estudantes veem uma malandragem no próprio termo. Para eles, o oposto de uma escola sem partido não é uma escola com partido. “Cabe às instituições discutir sobre tudo. Acho que o colégio deve ser suprapartidário. Por que eu não posso sair do colégio sabendo qual partido significa o quê? Como é que eu vou tomar minhas decisões se eu não sei o que são?”, questiona Luisa.

Ela vai além. Para a jovem, é um projeto que quer censurar os professores e estudantes dentro de sala de aula, um espaço de conhecimento. "É o conhecimento que impede a ignorância, a discriminação. Só que isso não tem o interesse dessas pessoas. É um projeto feito pela bancada evangélica, conservadora e reacionária, que quer permitir a prisão de professores".

Norteados pelo repúdio a essas medidas, os secundaristas defendem uma visão mais ampla do papel da escola, influenciados pela ideia de educação libertadora à la Paulo Freire e Darcy Ribeiro. "Não é só chegar com a sua mochilinha, entrar na sua sala e ir embora”, acredita Lucas, de 16 anos.

Desafio para os ocupantes, segundo eles, é convencer os próprios estudantes de que o movimento é por todos. "Nós perdemos o pessoal por quem estamos lutando”, lamenta Luana. Mas Lucas desenha o caminho. “Existem dois polos: o político e o público. E nós não temos domínio e poder sobre o político. Só podemos tentar influenciar o público da melhor forma”, diz.

Ocupações

O movimento secundarista ganhou visibilidade depois que a estudante curitibana Ana Júlia Ribeiro, em quem os ocupantes do CPII se veem representados, discursou com lágrimas nos olhos para a Assembleia Legislativa do Paraná. Em dado momento desta semana, eram mais de mil instituições tomadas em todo o país.

No caso do Rio, o movimento funciona também como uma continuação das ocupações dos colégios estaduais, que se deram em maio deste ano. "Queremos dar visibilidade para que o governo enxergue o movimento estudantil brasileiro. Porque nas estaduais eles simplesmente entram, batem, perseguem os estudantes e ninguém move um dedo para mudar isso”, comenta Lucas.

Apesar de ser uma instituição federal, o que dificultaria intervenções policiais, os alunos não deixam o medo de lado. "Tendo em vista o que está acontecendo atualmente, com a volta de práticas da ditadura, a possibilidade é real. Existe a perseguição da Polícia Militar, que, apesar de não poder, já bateu na nossa porta e tentou entrar. Policiais à paisana e fardados. Essa perseguição é real. É um medo", alerta Luisa.

Dia a dia

Cozinhar e limpar são duas funções recorrentes nas ocupações. “Aprendemos a importância de não jogar comida fora, de fazer nossa comida e de limpar o banheiro, porque se a gente não limpar, ninguém vai. Se um papel de bala cair no chão e a gente não catar, vamos nos ferrar por causa dos ratos”, vaticina Luana.

A ocupação do CPII Centro é dividida em cinco comissões: cozinha, segurança, comunicação, cultura e limpeza, a maior e mais importante. A comida vem de doações de pais, ex-alunos e apoiadores em geral. Nesta semana, os ocupantes promoveram 'aulões' diários para os alunos que vão fazer o Enem. 

E, afinal, o que pensam os pais? "Minha mãe ficava um pouco com o pé atrás, mas depois que eu expliquei para ela como é aqui dentro e como é um aprendizado para a vida, ela já está tranquila e diz até que está orgulhosa”, diz Lucas.

*Os sobrenomes foram omitidos para preservar a identidade dos estudantes

Reportagem de Caio Sartori, estagiário


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