Por gabriela.mattos
Rosemere Ferreira foi presa no caso e agora beneficiada pela decisão do STFJoão Laet / Agência O Dia

Rio - A decisão da 1ª Turma do Supremo Tribunal Federal (STF), que considerou, em um caso específico, que o aborto até o terceiro mês de gravidez não é crime, está causando polêmica no meio jurídico e em grupos pró e contra a legalização do procedimento. Isso porque a interpretação pode ser vista como base para juízes de outras instâncias pelo país.

A sentença do STF é válida apenas para um caso de 2013, envolvendo funcionários e um médico de uma clínica clandestina em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, que foi desarticulada por agentes da Polícia Civil. Entre os beneficiados estão a técnica em enfermagem Rosemere Aparecida Ferreira e Edilson Ferreira. Os dois foram presos novamente um ano depois do aborto em Caxias, por um crime que ganhou repercussão nacional: a morte de Jandira dos Santos Cruz. “O crime foi bárbaro. A Jandira estava com pouco mais de três meses de gravidez e passou mal durante o aborto. Eles (Rosemere e outros envolvidos) não chamaram socorro. Então, resolveram dar um tiro na cabeça do cadáver para fingir um assassinato. Depois, o corpo foi esquartejado e incendiado”, afirmou o delegado Hilton Alonso, que investigou o caso na época.
Publicidade
Pouco tempo depois, Rosemere foi apontada como integrante da maior quadrilha de aborto brasileira, na operação Herodes. Nela, 76 foram pessoas, incluindo o médico Carlos Eduardo de Souza e Pinto, também beneficiado pelo STF no caso relativo a Caxias. Na ocasião, quando a polícia chegou, ele fazia o aborto de uma mulher com menos de três meses. Segundo inquérito, ele saiu correndo, deixando a paciente sangrando na maca, e se escondeu em uma caçamba de lixo para não ser preso.
Entre os três ministros que votaram a favor da revogação da prisão dos réus no caso de Caxias, Luís Barroso disse que juridicamente há duas posições antagônicas sobre os embriões em fase inicial de gestação.
Publicidade
“De um lado, os que sustentam que existe vida desde a concepção.(...) De outro, estão os que sustentam que antes da formação do sistema nervoso central e da presença de rudimentos de consciência — o que geralmente se dá após o terceiro mês de gestação — não é possível ainda falar-se em vida em sentido pleno”, diz trecho. Ainda para Barroso, os artigos que criminalizam o aborto ferem a Constituição por contrariarem diversos direitos constitucionais da mulher, como a autonomia, os direitos sexuais e reprodutivos, a integridade física e psíquica e a igualdade ao homem.
Publicidade
“Tenho minhas convicções sobre o aborto, mas sigo a lei. Para mim, essa decisão não segue o que está descrito na lei e causa apreensão”, afirmou o promotor Marcelo Muniz, que atua no caso da operação Herodes. “Por enquanto não afeta o processo, mas pode acabar com ele. Se o aborto não for crime, não existirá também associação criminosa (no caso)”, disse.
Já para o presidente da Comissão de Segurança Pública da OAB/RJ, Breno Melaragno, a decisão do STF leva em conta um conjunto de normas combinadas. “O direito deve sempre proteger um direito e, nesse caso, o direito em debate é a vida. Se é entendido que até o terceiro mês não há vida, então entende-se que não há crime. Não havendo vida, a mulher tem autonomia para decidir sobre o seu corpo.”
Publicidade
No Brasil, o aborto é permitido por lei em caso de gravidez após estupro, de anencefalia do feto ou em uma gravidez que coloque em risco a vida da gestante. A Organização Mundial de Saúde estima que 75 mil mulheres morram anualmente no mundo por complicações em abortos realizados de forma clandestina.
Médico: até 3 meses, não há consciência

Ex-presidente da Sociedade de Ginecologia e Obstetrícia do Rio de Janeiro, o obstetra Marcelo Burlá afirmou que até os três meses o feto não possui consciência e tem sistema nervoso central rudimentar. “Até nove semanas, não se tem nem como diferir o embrião humano de um embrião de outro mamífero, como o de um boi, ou de um cavalo. Até 12 semanas, o coração já bate, o sangue já circula, mas não há consciência, pois o sistema nervoso central só se desenvolve mais à frente”, afirmou. O especialista se declara a favor da descriminalização do aborto. “Uma mulher tem que ter o direito de escolha e decisão sobre o seu corpo”, disse.
Publicidade
A decisão do STF foi vista como uma vitória entre grupos feministas. O coletivo Olga declarou que “ainda que o entendimento seja pontual e não uma mudança efetiva na lei brasileira, vemos, finalmente, uma amostra de como a descriminalização garantiria direitos e dignidades a mulheres que decidem abortar”.
Já na Câmara, a bancada evangélica se manifestou. “Não tenho dúvida de que vamos corrigir este equívoco cometido pelo STF”, disse o deputado federal Roberto de Lucena (PV). O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM), anunciou uma comissão especial para debater o aborto no país.
Você pode gostar