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Erradicada no século passado no Rio, febre amarela volta a preocupar

Desequilíbrio ecológico pode estar por trás da volta da versão silvestre da doença

Rio - Erradicada no século passado, a febre amarela não preocupava, não integrava a caderneta de vacinas obrigatórias e parecia uma realidade distante do Estado do Rio. Estava enterrada no passado. Mero engano. A doença trazida da África em navios e propagada através do inimigo número um dos sanitaristas, o Aedes aegypti, não é um surto no estado, mas passou a ser uma das maiores preocupações por aqui. É que a sombra da epidemia que matou 60 mil pessoas, entre 1849 e 1907, não foi apagada da história. E, apesar das medidas de precaução, há muita tensão em relação ao assunto.

O desafio das autoridades municipais, estaduais e federais é impedir que o mal chegue às áreas urbanas, o que não ocorre desde 1942. No estado, uma pessoa morreu com a doença em Casimiro de Abreu, onde outro caso foi notificado. Vacinação em massa em todo o estado e maior controle sobre o trânsito de pessoas em turismo ecológico são duas medidas tomadas imediatamente, por precaução.

Brigada contra o Aedes aegypti, comandada pelo sanitarista Oswaldo Cruz, obteve bons resultados na época Reprodução

Mas porque a doença ressurgiu de forma mais preocupante? Umas das prováveis causas seria o desmatamento, que causa desequilíbrio ecológico, deixando escassos os predadores dos mosquitos dos gêneros Haemagogus e Sabethes, transmissores do vírus no meio rural, onde macacos são os principais hospedeiros. O desastre da Samarco no Rio Doce também é apontado como causa para o desequilíbrio ecológico.

Nas cidades, onde o homem é o único hospedeiro, falhas históricas no combate ao Aedes aegypti, principal vetor urbano, continuam tirando o sono das autoridades.

A tentativa de exterminar Aedes começou com o médico sanitarista Oswaldo Cruz, que desenvolveu a vacina, e comandou, no início do século XX, 5 mil homens na destruição de focos. O excesso de doentes fez com que até fábricas, como a de tecidos Aliança, em Laranjeiras, fossem transformadas em hospitais. As investidas de Oswaldo Cruz, mesmo contrariando as Forças Armadas, e parte da população — que desencadeou movimento conhecido como a ‘Revolta da Vacina’ (1904) — deram resultados.

“Na época, o Rio tinha 800 mil habitantes. Com o passar do tempo, negligências políticas e descaso com a saúde, fizeram com que o vetor, no caso do Aedes, nunca tenha sido combatido de forma eficaz. Hoje, com mais de 6,5 milhões de cariocas, essa luta é mais difícil, mas não impossível”, diz o historiador Milton Teixeira.

Fábrica de Tecidos Aliança, em Laranjeiras, foi usada, em 1870, como hospital de emergência Divulgação

Mazelas políticas e econômicas, conforme ele, e a falta de ações públicas eficientes ao longo das últimas décadas, lembram algumas situações do Brasil Império, quando o Aedes, que agora também transmite a dengue, a zika e a chikungunya (que mataram 794 pessoas em 2016), era o mesmo, embora tivesse outro nome”, observa. A pesquisadora Goreti Rosa Freitas, do Instituto Oswaldo Cruz (Fiocruz), reforça a atenção para o combate ao Aedes. “O mosquito se tornou um pet, um mosquito que criamos em nossas casas, como animal doméstico. Isso tem que ser evitado”, comenta.

Milton menciona que após 1850, quando os surtos da doença se intensificaram, comerciantes foram morar nas partes altas de Santa Teresa, fugindo do mosquito. A nobreza, por sua vez, se refugiou em Petrópolis, que ficou conhecida como a “cidade sem mosquito”, por causa do clima e altitude. “Os escravos viraram reféns. Ao contrário do passado, é preciso que se crie melhores condições de saúde para todos”, opina.

Oswaldo Cruz desenvolveu a vacina contra a febre a amarela e liderou o combate à doença no Rio de Janeiro Divulgação / Casa Oswaldo Cruz / Fiocruz

Outro historiador, Nireu Cavalcanti lembra que, em 1860, o governo só intensificou o combate ao Aedes, devido à má fama do Rio no exterior. O historiador ressalta que novos casos também podem afastar turistas. “Há escassez de campanhas, como a da poliomielite, já erradicada.”

Vítimas fatais em Japeri eram queimadas

Japeri, na Baixada, registrou grande número de vítimas fatais de febre amarela no passado. Entre 1855 e 1857, a doença, com malária e leishmaniose, matou boa parte dos cinco mil chineses que trabalharam na construção da estrada de ferro. Os corpos eram queimados em território vizinho. Historiadores acreditam que a cidade de Queimados tenha herdado o nome por conta disso. Descendente de chineses, Rodrigo Marques, secretário de Governo de Japeri, diz que pesquisas da família apontam que seu tataravô, Francisco, morreu de febre amarela. “Foi um herói. Deu a vida pelo desenvolvimento”, diz Marques. A prefeitura planeja construir memorial aos chineses.

Crimes ambientais como causas

José Cerbino Neto, vice-diretor de Serviços Clínicos do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz), revela que a tendência é que a vacinação contra a febre amarela passe a fazer parte do calendário básico anual, como já ocorre em áreas de risco em outros estados. Cerbino lembra que desde a década de 1990 a febre amarela passou a migrar em direção ao litoral brasileiro.

As causas ainda dependem de estudos, mas ele acredita que o desmatamento e o crescimento desordenado, sejam duas hipóteses para o fenômeno. Ele evita falar em surto ou epidemia. “Há, sim, um aumento considerável de casos”, admite. Na quinta-feira, o Ministério da Saúde divulgou um balanço desde dezembro: 424 casos de febre amarela no país, com 137 mortes em 80 municípios — 49 deles em Minas Gerais.

Febre amarela voltou a preocupar os cariocas Arte O Dia

“Incompetência e falta de gestão em nível nacional” são apontadas por Jairo Martins, presidente da Fundação Nacional da Qualidade (FNQ), como causas para o ressurgimento da febre amarela. “Desde 2014 mortes inexplicadas de macacos vinham ocorrendo e o governo federal nada fez. Só atuam para apagar incêndios”, diz Maierovitch, que vê ligação também das notificações e mortes com o desastre ambiental da Samarco em Minas Gerais, em 2015, que teria provocado grave desequilíbrio ambiental.

Campanha no Rio começa dia 27

O Rio e a Região Metropolitana terão antecipada a vacinação em massa contra a febre amarela, independentemente do resultado de contraprova dos cinco macacos mortos nas matas cariocas. A Secretaria de Estado de Saúde já solicitou doses extras ao Ministério da Saúde e deve começar a campanha no dia 27. Nesta semana, a vacinação continua nos 34 postos de saúde (veja lista na página 17), com 250 doses por dia.

“A avaliação que estamos fazendo da capital é que o quadro epidemiológico não corresponde às ocorrências de macacos com febre amarela. De qualquer maneira, o que estamos buscando é antecipar a vacinação mesmo que o resultado dê negativo”, afirmou o secretário de saúde, Luiz Antônio Teixeira Jr.

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