Cadê a capivara, o jacaré e a lontra que estavam aqui?

Nas lagoas da Zona Oeste do Rio, animais tentam sobreviver à poluição e à caça

Por O Dia

Rio - Quem passa pelas margens poluídas do Complexo de Lagoas de Jacarepaguá pode não imaginar, mas naquelas águas, em meio aos detritos e ao esgoto despejados irregularmente, várias espécies de animais nativos lutam pela sobrevivência. Cada vez mais raros, jacarés, capivaras, cágados, lontras e até bichos-preguiça resistem à contaminação do lixo e à caça predatória, crime que vem se tornando comum na região.

Capivaras vivem em meio ao lixo e%2C por vezes%2C constroem suas tocas nas tubulações de esgoto. População está reduzida a 30% da originalOlho Verde

O destino deles, em até dez anos, segundo especialistas, pode ser o mesmo que tiveram caranguejos-aratú e camarões, um dia abundantes: a extinção. “Os índices de colimetria das águas são estratosféricos. Hoje, temos uma latrina abastecida pelos rios da Zona Oeste e povoada por poucos animais contaminados pela sujeira da qual se alimentam. A biodiversidade tende a acabar”, afirma o ambientalista Mário Moscatelli, que há 22 anos monitora a qualidade da água do mangue (ecossistema considerado berçário de espécies, em condições normais).

A última avaliação das águas, feita pelo Instituto Estadual do Ambiente, em maio, mostra que apenas a Lagoa de Marapendi tem níveis aceitáveis de coliformes. A equipe do DIA percorreu de barco os 14 km² de espelho d’água, que compreendem cinco lagoas diferentes, na última semana, e presenciou aves e mamíferos que agonizam em meio a pneus, sofás e todo tipo de detrito.

Em vários pontos, a concentração de sedimentos é tão grande que a profundidade das águas torna-se inferior a 1 metro. Acostumado às águas escuras das região, o alerta do ambientalista se acendeu, nos últimos tempos, para a caça e consumo dos animais.

“Quando cai a noite, temos um safari nessas águas promovido por moradores das cinco comunidades que margeiam as lagoas. Não existe fiscalização”, denuncia. Depois de abatidos, carnes de jacarés e capivaras são comercializadas de forma clandestina em restaurantes de carnes exóticas. “Além de contribuir para um crime, quem come estas carnes contaminadas corre um grande risco de infecções por cianobactérias, que podem causar câncer de fígado e infecções graves”, alerta.

Promessa de solução até 2016

Profissionais são unânimes em apontar a solução para o problema: além da dragagem de cerca de cinco milhões de metros cúbicos de lixo e lama que se concentram no fundo das lagoas, é necessária a limpeza dos rios que lá desembocam. “O trabalho deve ser feito até as Olimpíadas de 2016, quando haverá investimento”, ressalta Moscatelli. Hoje, o combate de resíduos é feito com gradil ecológico.

A Secretaria Estadual de Meio Ambiente disse que a dragagem, orçada em R$ 673 milhões, será concluída até junho de 2016. A caça, segundo a SEA, é coibida pela Coordenadoria de Combate aos Crimes Ambientais. Irregularidades devem ser passadas ao Disque-Denúncia (2253-1177). A Rio Águas informou que 70% do serviço de limpeza dos rios da região já foram realizadas ao custo de R$ 364,9 milhões.

PREJUÍZOS DA DEGRADAÇÃO

POPULAÇÕES REDUZIDAS
Segundo o biólogo Ricardo Freitas Filho, coordenador do Instituto Jacaré, que monitora a fauna da região, a população aproximada dos crocodilianos é de seis mil animais, dos quais 500 são monitorados por microchips. As capivaras são estimadas em cinco mil. Considerado o maior roedor do planeta, a espécie tem hábitos noturnos e costuma viver em grupos. Por vezes, elas constroem tocas nas tubulações de esgoto da região. Estima-se que ambas as populações sejam reduzidas, hoje, a 30% da original.

DESEQUILÍBRIO
A temperatura das águas durante o período de incubação dos ovos de jacarés é determinante para a definição do sexo dos filhotes, afirma Ricardo. “A sujeira aquece as águas das Lagoas, o que propicia o nascimento de machos. Hoje, eles são cerca de 85% dessa população”, ressalta.

DOENÇAS
Além da poluição e da caça, a surpressão do meio ambiente por construções imobiliárias causa mortandade das espécies. “É cada vez mais normal encontrar capivaras e jacarés em condomínios da Barra da Tijuca, onde animais domésticos passeiam. O convívio pode levar carrapatos domésticos a animais silvestes e doenças como a febre maculosa podem ser levadas para o ambiente doméstico”, diz o biólogo.

EXTINÇÃO
O barqueiro Adenaldo Silva, que trabalha há 41 anos na região, se lembra dos tempos em que seu ‘ganha-pão’ vinha da pesca. “Eram camarões e caranguejos em fartura. Peixes nobres, como robalos e garoupas, eram o ‘lixo’ do nosso trabalho”, recorda. Hoje, as populações desses animais são nulas. Outras espécies, como cágados-pescoçudos, jibóias, bichos-preguiça e lontras (que já foram consideradas praga) ainda podem ser vistas raramente, e não têm populações calculadas.