Por monica.lima

Terça-feira, a faxineira não apareceu. Quarta-feira também não. Culpa da greve dos ônibus. Fui ao banco, não pude entrar. Greve dos vigilantes. Portanto, as filas nos caixas eletrônicos estavam enormes. Entrei no hortifruti e, no fim das compras, tive que tirar uma grande parte das mercadorias, porque o entregador ainda não tinha chegado por causa da greve dos ônibus. As quatro sacolinhas que pude carregar custaram quase R$ 100 e não comprei bacalhau, foram só legumes, frutas, frios e pão. Como diz a minha filha: tá puxado! E o pior, só tende a piorar. Esta conjunção de Copa com ano de eleições está se tornando uma mistura diabólica para a vida dos brasileiros.

Tenho a sensação de que o carioca vai chegar nesta Copa cansado. As pessoas até estão tentando se animar e acreditam que, quando chegar na hora da bola rolar, todo mundo vai acabar sendo cooptado pela festa. O brasileiro, de um modo geral, vai receber bem, porque é de sua índole, mas aquela alegria que era fácil de se ver nas ruas, não se encontra mais com tanta abundância. O carioca, especialmente, está cansado: do trânsito, dos transportes lotados, das promessas que não foram cumpridas para a Copa, dos cursos profissionalizantes que não aconteceram, do aumento da violência, de ver, a cada dia, mortes por motivos mais fúteis, de pagar cada vez mais caro para comer fora e para se divertir, do atendimento ruim, de ter sempre problema com o serviço de alguma empresa. Estamos cansados de esperar melhorar. Mas vai piorar.

Leio nos jornais que os funcionários do Itamaraty entraram em greve em suas representações pelo mundo. Exigem aumento salarial e remuneração por horas extras. Uma petição sobre este pleito foi enviado ao governo há três anos e não houve resposta. A Polícia Federal discute uma paralisação nacional na Copa se não for fechado o reajuste salarial que está sendo discutido desde o ano passado. Os aeroviários resolveram ampliar sua força e se juntaram com os funcionários do grupo Latam, da América Latina, para fechar os acordos trabalhistas, que foram negociados no fim do ano passado. Sem acordo, poderá haver greve parcial. A greve de funcionários do Ministério da Cultura, que já fechou vários museus, e pode fechar muitos outros durante a Copa, é motivada por uma reivindicação antiga dos servidores, que pedem plano de cargos e equiparação salarial com outros setores da administração federal. É a quarta greve, em dez anos, pelo mesmo pleito.

Engenheiros da prefeitura do Rio votam paralisação de 72 horas para reivindicar piso salarial de nove salários mínimos. Os professores da rede pública do Rio começaram uma nova greve. Também discutem plano de cargos e reajustes. E a greve dos ônibus, que tem tanta adesão que mais parece greve de patrões, está sendo polarizada pelo sindicato da categoria e pela dissidência. O acordo coletivo entre o sindicato dos patrões e o sindicato dos empregados assegurou reajuste de 10%. Os dissidentes querem 40%.

Parece uma panela de pressão pronta para explodir se diminuir mais um pouquinho a água. Todos os funcionários resolveram se revoltar justamente na véspera da Copa? Não. Na verdade, os funcionários que têm força para isso, e vamos combinar, a maioria das categorias não tem, resolveram utilizar a proximidade da Copa para cobrarem negociações que se arrastam. O problema é que as decisões se arrastam. O governo não resolve, vai empurrando, e estas decisões afetam o bolso dos trabalhadores. E todo mundo está cansado de esperar.

A questão é que todas estas paralisações que já estão acontecendo complicam a vida das pessoas, aqui e no exterior, porque quem está pedindo visto para vir ao Brasil agora, pode ficar sem. Aqui, com menos funcionários, as obras, que já estão fora do cronograma, atrasam mais ainda. Tudo da Copa está sendo terminado nos 45 do segundo tempo. E tudo isso impacta toda a economia.

O governo tem que desatar os nós que deixou formar. Tem que sentar, assinar os acordos e cumpri-los. Gerenciar a mão de obra, incluindo a insatisfação dela, faz parte do trabalho de governar. Se o governo pretender partir para uma briga de cabo de guerra, esperando que as categorias não tenham coragem de entrar em greve durante a Copa, porque não seria simpático e a população condenaria, pode se dar mal.

De um modo em geral, as pessoas estão trabalhando exaustivamente e com muita pouca perspectiva de melhoria de cargos e de aumento de salários. Aliás, muitos até prefeririam ter mais qualidade de vida do que aumento de cargo, porque a exigência está muito feroz. A população entende a insatisfação das categorias porque todos passam por isso silenciosamente.

Não sei porque, lembrei-me repentinamente das Copas da década de 70, época em que a esquerda dizia que o governo estava utilizando o futebol, o ópio do povo, para distrair a população do que acontecia nos porões da ditadura. Agora, nossa Copa de 2014 está sendo precedida por um choque de realidade, começando por colocar luz nos tais porões, e continuando com um sem número de protestos e paralisações que mostram que a insatisfação superou a esperança.

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