Por douglas.nunes

Entrevista com Maria da Conceição Tavares é um bom motivo para abrir o baú de memórias. A aguerrida professora que nasceu em Portugal e se tornou famosa no Brasil faz parte do time seleto de intelectuais que contribuiu para o pensamento econômico em nosso país. Falar com Conceição é um dos prazeres do jornalismo. Não esqueço o dia de 1978 em que Zuenir Ventura, chefe da sucursal da “Veja” no Rio, convocou-me para ouvi-la para as páginas amarelas da revista. Jovem repórter de economia, eu já participara de entrevistas com ela, mas uma exclusiva era bem diferente. Fiquei emocionado e agradecido a Zuenir, que era amigo de Conceição e a chamava de “Ciça”. Com a língua afiada de sempre, ela desancou a política econômica da época, comandada por Mário Henrique Simonsen, na Fazenda, e João Paulo dos Reis Velloso, no Planejamento. Não deixou pedra sobre pedra.

Fiz várias entrevistas com Conceição. Mas a mais emocionante aconteceu na semana em que foi divulgado o Plano Cruzado, em março de 1986. Ela me recebeu no apartamento em que morava na Praia do Flamengo, no Rio. Emocionada e com os olhos cheios de lágrimas, abraçou-me e disse que o plano de reforma monetária e combate à inflação representavam uma vitória de toda uma geração de economistas e também de jornalistas. Sem as reportagens e o espaço dado na imprensa aos economistas de oposição, explicou-me, as ideias heterodoxas não teriam prosperado. Passamos, então, às perguntas e respostas até que fiz um comentário sobre críticas às mudanças na política salarial. Conceição se levantou do sofá, segurou-me pelos ombros e disse que minha pergunta era descabida. Ficou muito irritada. Mas conheci ali o lado sanguíneo da famosa professora.

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Por muitos anos, onde estava Conceição estava Carlos Lessa, outro grande nome da escola estruturalista. Os dois eram amigos inseparáveis. Ela, Lessa e Antonio Barros de Castro foram responsáveis pelo fortalecimento do Instituto de Economia da UFRJ. Mas, com a volta da democracia, Conceição apaixonou-se pelo PT, enquanto Lessa se envolveu com o PMDB autêntico, de Ulysses Guimarães. Aos poucos se distanciaram por motivos políticos. Houve tentativas de reaproximá-los. Lessa, aos 78 anos, diz que Conceição, para ele, é como uma irmã, mas o problema é que não recebe bem suas críticas ao PT. Já a professora, aos 84, afirma que nunca brigou com Lessa, mas ele teria se afastado porque não gosta de Lula. Na verdade, a briga se deve ao gênio forte dos dois, que até nisso se parecem.

Além de Lessa e Conceição, fiz duas longas entrevistas com Celso Furtado, o decano dos economistas de esquerda. Mas também tive a oportunidade de ouvir a opinião de seus adversários liberais, entre eles, Eugênio Gudin (o decano do outro lado), Roberto Campos e Mário Henrique Simonsen. Enquanto Campos recebia os repórteres, em sua casa, à moda inglesa, de terno e colete risca de giz, o professor Simonsen, na FGV, com uma paciência de Jó, ajudou muito jornalista a conhecer melhor os meandros da economia. Na verdade, havia grande respeito entre as duas correntes de pensamento. Embora chamado de Bob Fields, Roberto Campos ajudou a criar o BNDES e foi professor de Conceição. Mesmo nos debates tratava-a de Maria, com intimidade. Simonsen,ao saber que militares prenderam Conceição em 1975, mobilizou-se para que a soltassem imediatamente. Nossos economistas são assim.

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