Por monica.lima

"Algumas pessoas falaram do Século Norte-Americano. Eu digo que o século no qual estamos entrando – o século que virá desta guerra – pode e deve ser o século do homem comum... Não deve mais haver imperialismo militar nem econômico... Os cartéis internacionais que servem à ganância norte-americana e o desejo de poder alemão têm que acabar...”

O discurso Henry Wallace, em 1942, seria impensável hoje. Em plena Segunda Guerra Mundial, Wallace era vice-presidente dos Estados Unidos no penúltimo mandato de Franklin Delano Roosevelt. Na época, segundo político mais popular do país. Só perdia em popularidade para o próprio Roosevelt. Wallace é hoje uma figura política relegada ao esquecimento. Mas na convenção do partido democrata, em 1944, ele era, disparado, o candidato favorito da base para compor a chapa novamente como vice de FDR. Um golpe orquestrado pelos caciques do partido impediu a nomeação de Wallace e deu o lugar a Henry Truman. Foi um daqueles dias em que a gente fica imaginando o que seria a história da humanidade se Wallace fosse o candidato e acabasse presidente assumindo o cargo após a morte de Roosevelt. Pacifista, abertamente humanista, cento e oitenta graus de distância política e ideológica de Truman, o vice alçado à presidência que, no cargo, autorizou o lançamento das bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki e deu início à guerra fria.

Wallace é o grande expoente de uma face do partido democrata que foi enterrada no mundo dicotômico e beligerante do pós-guerra. Os Estados Unidos nunca se recuperaram da caça às bruxas do McCartismo. Qualquer suspeita de preocupação com os desfavorecidos passou a ser taxa de tendência socialista, um verdadeiro palavrão. Os partidos republicano e democrata se tornaram cada vez mais do mesmo. Agora, o país se prepara para mais uma rodada do show da política. Aquele em que se gastam bilhões e bilhões de dólares para construir e divulgar a imagem mais apropriada dos candidatos, segundo as pesquisas de opinião, para ganhar o eleitorado. Nessa disputa político-comercial, o mercado editorial fatura alto.

Não é por outro motivo que já está se falando no lançamento do novo livro da ex-primeira dama e ex-Secretária de Estado Hillary Clinton, até agora a pré-candidata com maiores chances de concorrer à presidência pelos democratas. O livro Hard Choices (Decisões Difíceis) tem lançamento previsto para o dia 10 de Junho mas já está sendo muito discutido na imprensa norte-americana. A editora promete uma descrição dos bastidores da crise econômica que o governo Obama herdou assim que tomou posse, e dos demais desafios que Hillary enfrentou nos quatro anos em que respondeu pela diplomacia do pais. Claramente, um livro de candidata a presidente que vai se apresentar como política capaz, administradora eficiente e, como aparentemente gosta o eleitorado, durona no cenário internacional.

Antes mesmo de se declarar oficialmente candidata, Hillary já enfrenta os primeiros golpes baixos. Há quatro dias o fantasma Monica Lewinsky deu o ar da graça. A ex-estagiária da Casa Branca que teve um affair com o ex-presidente Bill Clinton, publicou na revista Vanity Fair um longo artigo sobre a trama, o famoso vestido manchado de sêmen, a perseguição que sofreu, o risco de suicídio, etc. e alfinetou... Apesar de se dizer democrata de carteirinha, Monica declarou que não votará em Hillary porque não gostou quando a ex-primeira se apresentou como responsável, em parte, pelas infidelidades do marido. Impossível não especular a respeito das intenções de se publicar um artigo como esse uma década depois do acontecido e dois anos antes da eleição presidencial.

Mas a candidatura Hillary Clinton é irremediável. Ela representa a direita do partido democrata (não que haja uma esquerda propriamente), tendência que se firmou com a eleição do marido Bill e que Barack Obama seguiu sem pestanejar. Basta voltar ao mercado editorial para ver quem são os “homens do presidente”. Chega hoje às livrarias Stress Test (Teste de Estresse), do ex-Secretário do Tesouro Timothy Geithner. Livro que, antes de editado, foi revisado por advogados do Tesouro, do Federal Reserve e por oficiais do Conselho de Segurança Nacional. Livro chapa branca para defender o programa de socorro aos bancos. No website que mantém na internet, Geithner antecipou como avalia a crise de 2008: “cometemos erros, o estrago foi devastador e de longa duração. Ainda assim, nos momento de maior perigo, os Estados Unidos foram capazes de desenhar e executar uma estratégia incrivelmente eficiente”.

Capaz de se parabenizar pelo desempenho, Geithner receberá os elogios esperados do mercado financeiro e do governo. Mas nem todos os políticos farão reverências. Alguns artigos já desmontam a argumentação ufanista e elitista bastante óbvia do comentário acima. E a melhor das críticas talvez seja da senadora Elizabeth Warren, avis rara no Congresso norte-americano. Eleita senadora por Massachusetts há dois anos, Warren lançou no mês passado o livro A Fighting Chance (Uma Chance de Luta) no qual relata a própria vida entrelaçada com a história das lutas e derrotas sofridas nas últimas três década pela classe média norte-americana.

<CW0>Warren é de origem humilde, conseguiu estudar e se tornar advogada depois de encaminhar os filhos na vida. É apontada por muitos como candidata potencial à Casa Branca. Ela não vai entrar no páreo agora. Mas o livro da senadora é, indiscutivelmente, parte do debate eleitoral. O discurso de Warren talvez não seja tão extremo quanto era o de Henry Wallace. Mas ela é hoje o herdeiro mais próximo que os democratas têm de um passado realmente progressista e radicalmente pacifista. Em entrevistas sobre o livro, ela foi bem clara: disse que Obama escolheu os banqueiros e não a classe média pendurada até o pescoço em dívida imobiliárias que não podia honrar. Os bancos estão bem obrigado enquanto o cidadão comum, que acreditou no sistema e saiu perdendo, foi despejado, teve os sonhos esmagados e terá como alternativas para a próxima presidência, sejam quais forem os candidatos, um democrata que coloca os interesses do setor financeiro antes dos da população e um republicano que faz exatamente o mesmo.

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