Por bruno.dutra

Na verdade, desde a crise da dívida na entrada dos 80 até praticamente o presente a evolução industrial foi tênue e muito oscilante, o que impossibilitou sua renovação estrutural e a incorporação de novos ramos do desenvolvimento industrial mundial. Não é por acaso que ao longo desse período a indústria brasileira, que entre os emergentes era a líder, ocupando a sétima posição global, foi perdendo posições e é hoje a décima-primeira, tendo sido ultrapassada por várias outras economias em desenvolvimento.

O fenômeno China acentuou a guinada em direção ao encolhimento produtivo brasileiro. Dificilmente o Brasil reproduzirá daqui para frente as escaladas industriais promovidas por várias outras economias emergentes. A China tem demonstrado enorme capacidade de desenvolver fatores cada vez mais eficazes para amparar sua liderança industrial. A competitividade suportada por baixos salários está cedendo lugar à vantagem obtida a partir das enormes escalas de produção, um fator ao qual já está se somando a maior capacidade de concorrência oriunda de P&D. Talvez por isso vários economistas têm anunciado um destino sombrio para a indústria brasileira, o que, para muitos deles, não deve fazer falta ao nosso crescimento econômico.

A nosso ver, tais teses não são corretas. Se há possibilidade de contar com o dinamismo de um setor sabidamente com destacada capacidade em movimentar diversas cadeias de bens e serviços, e que ainda é o maior gerador de inovações, ele não pode ser descartado. Por outro lado, é possível preservar o que ainda resta — e não é pouco — de uma indústria relativamente diversificada e que com alguns ajustes poderá ter um crescimento maior a longo prazo. O que não é mais possível adiar são ações muito conhecidas de todos, mas que não saem do papel. A urgência envolve temas da infraestrutura, da tributação, dos juros e do câmbio que, juntamente com o aumento dos custos de produção após a crise global de 2008, transformaram os gravíssimos problemas estruturais das últimas décadas em uma verdadeira avalanche de destruição da produção industrial.

Para quem ainda duvida de que algo muito grave acontece na indústria brasileira, basta uma breve análise do desempenho dos vários ramos industriais tomando como referência o período imediatamente anterior à crise, ou seja, agosto de 2008. Os dados foram levantados pelo IEDI e mostram que nos últimos seis anos a produção da indústria de transformação caiu 5,1%. A média esconde mais do que revela as características mais importantes desse período. Ramos industriais com algum crescimento expressivo — superior a 1% ao ano — foram poucos, apenas seis de um total de 24. Por outro lado, 12 tiveram margem negativa.

Este último bloco reúne a chamada indústria tradicional e complexos industriais inteiros, da envergadura do complexo metalmecânico e do eletroeletrônico. O cancelamento de produção foi dramático em vários ramos, como por exemplo, no caso da indústria tradicional, a queda de 30% em produtos têxteis, o recuo de 24,5% na fabricação de veículos automotores e de 25,1% em equipamentos de informática, produtos eletrônicos e de comunicação.

Na verdade o colapso industrial brasileiro só não foi maior porque os poucos ramos com crescimento mais robusto têm especial representatividade na indústria. Em quase todos eles o dinamismo veio da redistribuição da renda promovida no período, como nos casos de alimentos (+7%), bebidas (+22%), produtos de limpeza e cosméticos (+19%) e produtos farmacêuticos (+16%).

Muito se discute sobre o limitado alcance das medidas da política industrial em mudar esse quadro, o que em parte é verdade porque essa política acabou por amplificar os incentivos ao consumo e limitou demasiadamente o apoio à exportação e à internacionalização de nossas empresas. Mas o fundamental é que sem as medidas de reordenamento macroeconômico na linha dos temas já mencionados de infraestrutura, tributação, juros e câmbio, qualquer política teria semelhante eficácia.

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