Por bruno.dutra
Publicado 25/08/2014 23:02 | Atualizado há 6 anos

A 44 dias úteis do segundo turno das eleições, nenhum dos três candidatos com chance de levar o pleito precisa formalizar às pressas uma carta de intenções destinada a “acalmar” os mercados. A razão é que não há nenhum nervosismo nos segmentos de câmbio e juros. Os investidores já incorporaram aos preços dos dois ativos o inevitável retorno às urnas em 26 de outubro. A aposta agora gira em torno do nome que enfrentará Dilma Rousseff no jogo final. O mercado desembarca sem remorso da carroça de Aécio Neves e sobe lépido no avião de Marina Silva. E já reage ao fortalecimento da ambientalista da mesma maneira com a qual comemorava antes o enfraquecimento de Dilma: alta da Bovespa, queda do dólar e dos contratos futuros de juros. O entusiasmo com Marina amorteceu o impacto sobre o câmbio doméstico de uma onda internacional de valorização da moeda americana.

O momento atual é da candidata do PSB. Os juros caíram ontem porque os rumores são de que crescerá nas pesquisas que serão divulgadas esta semana. O boato amplamente comprado na Bovespa foi de que pesquisa Ibope vai revelar hoje um empate entre Dilma e Marina no dia 5 de outubro. Mas mesmo que Dilma chegue favorita no dia 26 há pouco espaço para inquietações genuínas ou especulativas.

Há dois motivos para a atual calmaria dos mercados. A menos importante é interna. O risco de descontrole da economia em qualquer das três vertentes políticas em disputa, embora com graduações diferentes, é mínimo. Quem ganhar a eleição terá de fazer ajustes profundos em 2015. Vitoriosa, Dilma já terá de começar a realizá-los logo em novembro. O mundo não irá parar de girar nos dois meses finais do ano. Não pode perder tempo. Dilma tem hoje um único problema na área econômica, pois dele decorrem todos os outros: a farra fiscal.

Os “empréstimos” que bancos oficiais estão fazendo ao Tesouro configuram uma situação abstrusa que remonta ao descalabro da época da hiperinflação, caracterizada pelo uso político que governadores faziam dos bancos estaduais. Dilma não pode iniciar o segundo mandato sob a espada do virtual rebaixamento do rating brasileiro. Precisará aproveitar o momento de reconfiança popular em seu governo para trocar ministros e secretários desgastados e promover mudanças e reformas.

Aécio e Marina prometem fazer ajustes conservadores. O passaporte de ambos tem o mesmo carimbo de livre circulação pelas fronteiras do mercado: a independência legal do Banco Central. O ajuste do primeiro será clássico e fulminante, já que o Armínio Fraga de hoje é o mesmo de sempre. A extensão e a presteza do que poderia ser feito por Marina são ainda uma incógnita. Os seus dois expoentes econômicos — Eduardo Gianetti da Fonseca e André Lara Resende — rezam o catecismo da igreja neoliberal da qual Fraga é sumo sacerdote, mas ambos vêm mostrando uma ojeriza ao crescimento econômico estranha ao dogma. E enquanto Aécio, na clássica postura peessedebista, delegaria o comando da economia ao histórico quadro de especialistas do seu partido (recheado de executivos do mercado), Marina desenvolveu um complicado e moroso ritual para a tomada de decisões. Estas não costumam ser nem rápidas nem previsíveis.

Se algum investidor mais paranoico já precisasse se proteger de um cenário de descontrole econômico em 2015, as fichas teriam de ser depositadas em Marina. Se o ano que vem já enfeixa um raro leque de desafiantes problemas econômicos mesmo para partidos que como o PT e o PSDB são calejados no exercício do poder, o que esperar de alguém que nunca ocupou cargos executivos e sempre se mostrou avessa ao jogo sujo das alianças, o único jeito hoje conhecido de assegurar alguma governabilidade?

A sorte desse paranoico é que não precisa fazer essas apostas agora. Aqui entra o principal motivo para a calmaria dos mercados. Fracassou a tentativa da semana passada do Federal Reserve (Fed) de fazer política monetária austera na base do “grito”. O expediente, muito empregado no Brasil com variados graus de sucesso, consiste em alertar para uma situação ainda não inteiramente contemplada pelos mercados. Em sua última ata, o Fed advertiu para o risco de o juro básico subir antes do esperado. E, em seu discurso no célebre simpósio de Jackson Hole, no Wyoming, a presidente Janet Yellen, em frases esparsas, atenuou seu pendor “dovish”. A taxa da T-Note de 10 anos chegou a subir de 2,34% no início da semana passada para 2,41% na sexta-feira, mas ontem desceu a 2,39%.

O movimento descendente do juro longo americano ocorreu apesar de a regional de Chicago do Fed ter informado o prosseguimento do processo de recuperação da economia. O seu índice de atividade nacional subiu de 0,21 em junho para 0,39 em julho, distanciando-se mais do ponto zero que afere a velocidade de expansão da economia em relação à média histórica. O dado serviu de alento ao mercado de câmbio global. Foi visto como justificativa para a valorização da moeda americana mundo afora. O real não escapou dessa onda, apesar do otimismo resultante da expectativa de que a candidatura de Marina Silva conseguirá evitar a vitória de Dilma. O dólar fechou a R$ 2,2905, em valorização de 0,44%.

Mas o mercado de “treasuries” ignorou o dado e as recentes ameaças do Fed. Os analistas não abandonam facilmente sua convicção de que quando o juro básico subir, lá pelo meio de 2015, avançará muito pouco. Mesmo se a banda formal de flutuação da “fed funds rate” dobrar — saltando da faixa de zero a 0,25% para o intervalo entre 0,25% e 0,50% — os juros ainda serão muito baixos. E não se descarta uma modulação ainda mais suave. Não há como o juro de 10 anos avançar consistentemente num momento em que os EUA recebem vasto contingente de capitais em fuga da zona do euro e do Leste europeu.

O mercado percebeu que o Fed na verdade não alterou na semana passada seu cronograma de normalização das condições monetárias. Ele só não deseja juros de 10 anos tão baixos. Taxas entre 2,60% e 2,70% são mais convenientes para o sucesso do movimento ordenado de saída do afrouxamento quantitativo. Juro de 2,35% pode estimular subitamente a atividade e obrigá-lo a antecipar seus planos, ainda mal-esboçados. Nem sabe ao certo o que fará com a montanha de títulos enfiados no seu balanço.

Não há ambiente para altas no DI futuro. Nos EUA, os juros caem. Na Europa, o Banco Central Europeu (BCE) acena com a ampliação da liquidez. No Brasil, as expectativas de inflação estão estabilizadas, enquanto as de PIB não param de recuar. No Focus divulgado ontem, há uma convergência das projeções de IPCA para patamar levemente abaixo de 6,30%, ou seja, o teto da banda não está sob ameaça. Para 2014, prognóstico de 6,27%; para 2015, de 6,28%; e, para os próximos 12 meses, de 6,24%. A projeção de crescimento do PIB para este ano caiu pela décima terceira semana seguida. Está agora em 0,70%. Fundo do poço? O dado do PIB do segundo trimestre, que o IBGE divulga na sexta-feira, dirá. O contrato de juro futuro para a virada do ano cedeu de 10,81% para 10,80%. E a taxa para janeiro de 2017 recuou de 11,41% para 11,37%.

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