Por bruno.dutra
Publicado 25/08/2014 22:46 | Atualizado há 6 anos

Filho de fazendeiros de Pernambuco, estudou nos Estados Unidos e casou-se com a herdeira de uma fábrica de tecidos que deu origem ao poderoso Grupo Votorantim, produtor de cimento, alumínio e outros insumos básicos. Dedicou-se também à política. Foi ministro da Agricultura no governo João Goulart e senador pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), de 1963 a 1971. Quando morreu em 1973, seus filhos Antônio Ermírio e José Ermírio tomaram a frente dos negócios. Antônio Ermírio logo se impôs como um dos maiores nomes da indústria brasileira. Sem medo da ditadura dos generais, negou-se a contribuir para Operação Bandeirantes e fez críticas à política econômica mesmo sob ameaça de represálias. Homem de espírito livre, amou o Brasil como poucos.

Ontem, alguém disse que Antônio Ermírio de Moraes foi o último dos grandes capitães da indústria. Na verdade, o filho de José Ermírio ultrapassou as fronteiras do mundo empresarial. Intelectual respeitado, ele opinava com verve e brilhantismo sobre todos os temas da vida nacional. Suas entrevistas, incisivas e divertidas, sempre repercutiam e incomodavam os responsáveis pelos rumos da economia.

De tanto falar sobre política e inspirar-se nos ideais do pai, candidatou-se ao governo de São Paulo em 1986, pelo PTB. Mas suas propostas de corte no executivo e de maior racionalidade nos serviços públicos espantaram servidores e sindicalistas. Favorito de início, perdeu terreno aos poucos e, com 2,5 milhões de votos, acabou derrotado por Orestes Quércia, do PMBD. Foi sua primeira e única tentativa.

Muito vai se falar de Antônio Ermírio, um democrata de convicções firmes e transparentes. Por coincidência, ele morre no momento em que são lembrados os 60 anos do suicídio de Getúlio Vargas, o patrono do PTB e do trabalhismo. Ao contrário do empresário, não há consenso sobre a figura de Vargas. Mesmo a presidente Dilma Rousseff, sua admiradora confessa, reconhece que o político gaúcho foi contraditório. “Apesar de ter vivido momentos em regime de exceção, ao final de sua vida foi reconhecido como um grande democrata”, afirmou ela, em entrevista no domingo. Como fazem os admiradoras de Vargas, Dilma destacou as iniciativas políticas que considera importantes até hoje, citando a legislação trabalhista e a criação da Petrobras, da Vale do Rio Doce e da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN).

Os elogios são justos. De fato, o ex-presidente contribuiu para a industrialização e permitiu melhores condições de vida para os trabalhadores. Mas nada justifica que se tente apagar seus anos de ditadura. Um tempo de dor e repressão, comandada pelo chefe de polícia Filinto Müller. Presos sofriam torturas a ponto de enlouquecer. Luiz Carlos Prestes ficou incomunicável numa solitária por um ano. Para melhorar as condições de sua prisão, o advogado Sobral Pinto pediu que se respeitasse pelo menos o Código de Proteção aos Animais. Muita gente morreu nas masmorras do Estado Novo.

Se há dúvida, basta ler “Memórias do Cárcere”, de Graciliano Ramos. Obviamente, não havia liberdade de imprensa e jornais de oposição eram empastelados. Explica-se, portanto, o esforço para apagar a imagem de Vargas ditador e valorizar a de pai dos pobres. Mas hoje não é dia de lembrar Vargas. É dia de Antônio Ermírio de Moraes.

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