Por marta.valim

Na entrevista da capa desta edição, o sociólogo Luiz Werneck Vianna afirma que o desempenho da economia não terá grande influência no resultado da corrida sucessória. Tal afirmação, vinda de um intelectual que foi filiado ao Partido Comunista Brasileiro e ainda hoje traz na parede do gabinete um retrato de Karl Marx, é motivo de surpresa. Afinal de contas, mesmo os liberais norte-americanos dão um peso enorme às questões econômicas nas disputas eleitorais. Um deles, James Carville, estrategista da campanha de Bill Clinton à Casa Branca em 1992, cunhou a frase “É a economia, estúpido!”, que se tornou famosa em todo o mundo. Bill Clinton, vale lembrar, foi eleito, derrotando George W. Bush pela margem folgada de 43% a 38%.

Werneck acredita que a voz das ruas dá mais importância aos direitos sociais. A seu ver, as demandas por mais investimentos em Educação, Saúde e Habitação deveriam merecer prioridade dos candidatos, principalmente os da oposição. Apesar da atenção que o governo Dilma Rousseff deu a essas áreas, há grande insatisfação com os serviços essenciais. A opinião do professor da PUC é confirmada por pesquisas recentes. Na semana passada, o Datafolha informou que em sete grandes estados do país, que concentram 63% do eleitorado, a Saúde foi apontada pelos entrevistados como a pior área das administrações estaduais. Em alguns deles, mais da metade dos eleitores estão decepcionados com o atendimento dos hospitais públicos. Segundo a pesquisa, caiu para segundo plano a preocupação com a inflação e o emprego.

De fato, a economia não era principal bandeira nos protestos de junho do ano passado. Diz Werneck que este é um tema ao qual a mídia dá ênfase por influência do mercado financeiro e dos empresários. Pode ser. Mas é certo também que as questões econômicas, cedo ou tarde, se refletem no quotidiano das famílias. Dados divulgados na semana passada mostraram que a produção industrial continua em queda e o país já se aproxima de um cenário de recessão técnica, embora o governo tente exibir otimismo. O setor que mais tem influenciado no péssimo desempenho é a indústria automobilística, por não responder aos incentivos e sentir as restrições no crédito. Os maus resultado da venda de automóveis já provocam desemprego, o que pode contaminar toda a cadeia automotiva. Acendeu o sinal de alerta, pois o segmento responde por 25% do produto industrial.

Se a economia, hoje, não preocupa o eleitor comum, a prosseguir assim pode deixar de tirar o sono apenas dos especialistas e da elite empresarial. Caso não haja melhora do quadro até o mês de outubro, o tema certamente fará parte dos programas eleitorais e dos debates dos candidatos na TV. Há consenso sobre a necessidade de ajustes fortes para a retomada do crescimento. Mas é importante que sejam apresentadas, com clareza, as propostas de cada um. Dilma Rousseff pretende mudar a receita em vigor? Aécio Neves e seu time de tucanos têm algo diferente a oferecer? E a recém-chegada Marina Silva? O que pensa a respeito? Vai endossar o programa do ex-governador Eduardo Campos, ou vai abrir novos caminhos? Um de seus assessores é André Lara Resende, que fez parte da equipe responsável pelo Plano Real. Esta informação foi bem recebida pelo mercado e provocou alta da Bolsa. Portanto, mesmo que se concorde com Werneck, é bom não descuidar do peso da economia nas urnas.

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