Por douglas.nunes

A motivação primordial para as fortes altas registradas ontem pelo dólar e os juros futuros veio de fora: indicadores um pouco melhores sobre a economia americana, dados um pouco piores sobre a China e o temor de uma invasão da Ucrânia pelo exército russo. Mesmo valorizando-se 0,89%, cotado a R$ 2,2827, maior preço desde 4 de junho, quando fechou a R$ 2,2836, o dólar não subiu tudo o que poderia. Vencida a primeira barreira informal, a R$ 2,25, o mercado receia retaliações do Banco Central se aproximar-se demais da segunda, erguida a R$ 2,30.

Os juros negociados na BM&F não têm essa permanente espada da intervenção sobre suas cabeças e puderam avançar livremente. Além da arrancada do dólar, o pregão usou o depoimento do presidente do BC, Alexandre Tombini, ao Senado para autenticar o nervosismo. .

O que os investidores extraíram da fala de Tombini foi o seguinte: a mensagem de que a Selic não cai este ano foi ratificada; como o ciclo de alta ainda não fez pleno efeito sobre a inflação (resistente mas cadente no horizonte da política monetária), o risco de retomada do ciclo de elevação ainda não é relevante, mas como a economia não está em estagflação (e o BC não se atribui a culpa pela queda da atividade uma vez que os seus dois únicos compromissos são com a estabilidade monetária e com a do sistema financeiro) ela poderia aguentar doses suplementares de aperto se isso for exigido pela conjuntura externa em mutação. Ou seja, cair a Selic não vai de jeito nenhum, já subir, depende. Diante desse recado, quem estava “vendido” em taxa em DI futuro tratou de se cobrir, magnificando o esticão.

A reversão de posições tornou explosiva a alta dos contratos mais longos. Mas mesmo os curtos já operaram preventivamente temerosos de uma alta da Selic ainda este ano. A taxa para a virada do ano avançou de 10,82% para 10,87%. O contrato para janeiro de 2016 pulou de 11,31% para 11,54%, já distante do piso recente, os 10,90% do dia 22 de julho. E a taxa para janeiro de 2017 saltou de 11,58% para 11,86%, ante 11,05% no dia 22.

A visão de Tombini, de que a inflação está sob controle e economia não está em recessão, já mostrando indícios de recuperação nesse segundo semestre, suscita controvérsia. No primeiro caso, a Fipe divulgou ontem o seu IPC relativo a julho, alta de 0,16%, em aceleração comparativamente ao 0,04% de junho, mas em linha com as projeções dos analistas. No segundo caso, segundo o HSBC, o índice de gerentes de compras (PMI) do setor de serviços recuou de 51,4 em junho para 50,2 pontos em julho, chegando muito perto do degrau de 50 que separa a expansão da contração. Como o seu PMI da indústria está abaixo deste patamar, embora tenha subido no mês passado de 48,7 para 49,1, o índice composto se acomoda em 49,3, o menor desde agosto de 2012. Comércio e agricultura salvam o PIB? Só a segunda ostenta números bons.

Tombini elevou ontem o nível de preocupação da autoridade a respeito da conjuntura internacional já presente nos textos oficiais do BC. Falou da possibilidade de crescimento da aversão global a risco e sobre os alarmes falsos a cerca da recuperação das economias desenvolvidas. O mercado também cultiva essas dúvidas. E, na incerteza, o Plano B é sempre o mesmo: a busca da segurança oferecida pelas “treasuries”.

Os dados divulgados ontem sobre a economia americana não chancelariam a agitação registrada pelos mercados de câmbio mundo afora se o nível de incerteza não estivesse elevado. Nem amparariam a desconfiança de que podem tornar o comitê de política monetária do Federal Reserve (Fed) menos “dovish”. Foram publicados três indicadores. O mercado relativizou o ruim, preferindo conferir maior credibilidade aos dois bons. Os PMIs (índice de gerentes de compras, calculado pela Markit) do setor de serviços e o composto foram decepcionantes. O primeiro caiu de 61 em junho para 60,8 em julho. E o segundo recuou de 61 para 60,6. Os bons foram o índice ISM também do setor de serviços, que subiu de 56 para 58,7 (os analistas previam elevação mais modesta, para 56,5) e as encomendas à indústria, que cresceram 1,1% em junho, ante expectativa de avanço de 0,6%.

Ou seja, os mercados fizeram um carnaval para comemorar dados que não se referem nem ao ritmo da inflação, nem à saúde do mercado de trabalho, nem ao setor habitacional — os três grupos de indicadores observados mais atentamente pelo Fed. Diante desses números, o principal pregão americano — o secundário de títulos do Tesouro – após certo frenesi, apenas suficiente para puxar a taxa de 10 anos para 2,53%, deu a justa medida a eles. No fechamento, a T-Note de 10 anos registrou rendimento de 2,49%, exatamente igual ao da véspera.

A economia americana não exibe uma recuperação robusta a ponto de justificar uma alteração dos sinais emitidos pelo Fed. Ainda vale a placa indicando o início do segundo semestre do ano que vem como o momento mais propício a uma alta do juro básico. Os EUA retomam atividade em velocidade um pouco maior do que a experimentada pela Europa. Também divulgado ontem, o PMI composto da área do euro subiu de 52,8 para 53,8 pontos em julho, sugerindo um crescimento do PIB no terceiro trimestre do ano entre 0,4% e 0,5%. Foi a décima terceira alta consecutiva desse índice. EUA e Europa não desencadeiam movimento de aversão a risco. Nem um dado negativo divulgado ontem na China. O PMI composto cedeu de 52,4 em junho para 51,6 em julho, mas não é um índice capaz de tirar legitimidade do conjunto de informes positivos sobre o andamento da economia chinesa.

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