Por monica.lima

Há um forte motivo para desejar que os mercados reajam de forma serena quando os juros dos títulos americanos começarem finalmente a subir — algo esperado para o próximo ano. “O ajuste pelo lado das contas externas é muito doloroso”, aponta a professora Margarida Gutierrez, do Coppead (Instituto de Pós-Graduação e Pesquisa em Administração da Universidade Federal do Rio de Janeiro). Uma súbita redução das fontes de financiamento das contas externas provocaria uma elevação da taxa de câmbio. “O Brasil tem reservas em dólares elevadas, sim, mas elas são um estoque”, diz, argumentando que o Banco Central não poderia usar as reservas para segurar o câmbio artificialmente.

Sendo uma defesa de primeira linha, a taxa de câmbio flutuaria (para cima), provocando inflação, elevação dos juros e queda (ainda maior) da atividade econômica. Além disso, reservas em dólares elevadas (US$ 379 bilhões, na semana passada) não são uma exclusividade brasileira. A maior parte dos emergentes experimentou um acúmulo de reservas nos últimos anos. “Nesse caso, não temos nenhum diferencial, não há vantagem comparativa”, aponta. Por outro lado, houve uma piora nos fundamentos da economia brasileira: “Inflação em patamar mais elevado, contas públicas destroçadas, piora nas contas, baixo nível de atividade, perda da competitividade da indústria”, enumera a professora.

Além disso, a discussão sobre a piora das contas externas brasileiras (medida pelo comportamento do resultado na chamada conta de “transações correntes”) inclui um aspecto que muitas vezes passa despercebido. A necessidade de dólares para fechar o balanço de pagamentos brasileiro vem se expandindo apesar do baixo crescimento registrado nos últimos três anos . “O déficit nas contas é produto, em grande parte, de importações de bens de consumo, não de bens de capital destinados a ampliar a oferta de produtos. Há uma perda de competitividade da indústria brasileira e de sua capacidade de oferta”, aponta ela. Ou seja, não apenas a energia da economia brasileira está minguando. Sua capacidade de recuperação também. Ela relativiza o poder das taxas de juros internas elevadas de manter o poder de atração de investidores estrangeiros no caso de turbulências. “Este cálculo também inclui o risco cambial, que reduz a vantagem oferecida pelos juros”.

Por todos estes motivos, Margarida afirma que Fundo Monetário Internacional (FMI) está correto ao apontar que o Brasil é uma das economias vulneráveis a eventuais turbulências nos fluxos de capitais. Mas não se trata de um desastre inexorável. “Há uma chance, sim, de que a acomodação se dê de forma suave”, diz ela. Tudo vai depender de como será conduzida a política monetária pelos países desenvolvidos, em especial os Estados Unidos, e qual a percepção dos mercados em relação a ela e a seus impactos sobre os emergentes “frágeis”. Na definição do próprio Fundo, trata-se do grupo de economias com “maior inflação, déficits externos e fiscais mais elevados, ou outros desequilíbrios fundamentais” e inclui Argentina, Brasil, Índia, Indonésia, Rússia, África do Sul e Turquia. No plano doméstico, tudo dependerá das decisões econômicas adotadas por quem assumir a Presidência da República. Medidas que reforcem o compromisso do governo com a estabilidade ajudariam na recuperação da confiança.

Favas contadas

O discurso oficial deverá ser mantido até o limite, mas o fato é que, dentro do governo, já não se acredita mais que a dívida pública líquida em relação ao PIB (um dos principais indicadores de solvência das contas públicas examinados por analistas de dentro e de fora do país) ficará está estável em 2014. Talvez nem mesmo em 2015. A piora das contas públicas torna cada vez mais distante a entrega do superávit primário equivalente a 1,9% do PIB neste ano. E já se sabe que será muito difícil alcançar a meta de 2015, fixada em 2% para o governo central e em 2,5% para o setor público como um todo. Sem uma economia de recursos suficiente para cobrir as despesas com juros da dívida interna, ela tende a crescer em relação ao PIB. Em junho, a dívida líquida do setor público correspondia a 34,9% do PIB e descrevia uma lenta piora desde janeiro, quando estava em 33,1%.

Avalia-se que a elevação da relação dívida PIB em 2014 já tenha sido incorporada pelo mercado e agências de risco. Mas não a potencial piora em 2015. Se ela se confirmar, o Brasil corre o risco de cair um degrau no grau de investimento sob a ótica da Moody’s e da Fitch, seguindo o movimento já realizado pela Standard & Poor’s.

Mais impacto

Embora as exportações brasileiras para a Argentina venham caindo já há algum tempo, a advogada Renata Amaral, especialista em comércio internacional, avalia que o default do país vizinho ainda terá efeitos negativos sobre a balança comercial. Como se sabe, a Argentina é um importante parceiro comercial e um dos principais destinos dos produtos manufaturados do Brasil. “A elevação do risco argentino e a situação de default dificultam a captação de financiamentos externos ao comércio pela Argentina”, diz ela. Há, inclusive, travas contratuais nas relações de comércio que são normalmente acionadas nesses casos.

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