Por marta.valim

Esta quarta-feira é dia de reunião do Comitê de Política Monetária do Banco Central. Diante dos resultados raquíticos da economia brasileira, seria recomendável que o Copom reduzisse a taxa de juros básica, hoje fixada em 11% ao ano. Mas o mercado financeiro está certo de que isso não vai acontecer. Para que não pareça manobra meramente eleitoreira, a Selic deverá ser mantida, sob a justificativa técnica de que a prioridade do governo Dilma Rousseff continua a ser o combate à inflação. O preço a pagar é o marasmo na atividade econômica. É o que conclui, por exemplo, a economista Elena Landau, que foi diretora do BNDES no governo Fernando Henrique: “Esse PIB foi bom para o governo, senão estaríamos com a inflação acima do teto da meta e com problemas na oferta de emprego”.

No governo, porém, o quadro de recessão técnica (dois trimestres seguidos de queda no PIB) é atribuído não aos juros, mas a fatores aleatórios. Para a presidente Dilma Rousseff, um dos motivos foi a queda nos preços das commodities: “Isso explica por que alguns países de nossa vizinhança, como Chile, o Peru e mesmo a Colômbia, tiveram uma grande redução no seu crescimento”. Já o ministro da Fazenda, Guido Mantega, atribui o mau desempenho da economia no segundo trimestre à desaceleração de Estados Unidos e Europa, ao menor número de dias úteis por conta da Copa e à seca.

Ele vê também uma razão contábil: “Não acredito que estejamos em recessão. É meramente estatístico e o resultado do primeiro trimestre deve ser revisto se tivermos um terceiro trimestre com crescimento”. Mantega considera que só existe recessão quando há queda no emprego e na renda.

Em relação à preocupante queda na taxa de investimento, de 5,3%, não houve maiores comentários nem de Dilma, nem de Mantega. Entre os economistas, porém, formou-se um consenso. Todos dizem que os empresários, principalmente os da indústria, estão cautelosos com os rumos do país, mais ainda frente à incerteza que cerca o período eleitoral. Também são baixos os índices de confiança dos consumidores, agravados pelo ambiente de juros altos e inflação encostada no limite da meta.

Dilma, porém, não entrega os pontos. Acredita que estão dadas as condições para a retomada da economia e diz que “no segundo semestre deste ano teremos uma grande recuperação”. O tucano Aécio Neves pensa diferente e é radical em sua crítica: “Na verdade, o governo do PT terminou e antes da hora”. Mais ponderada, Marina Silva afirma que não defende “a filosofia do quanto pior, melhor”.

Na entrevista desta edição, Monica de Bolle atira pesado na política econômica. Para a professora da PUC-Rio, que tem tese de doutorado em crise financeira, o governo respondeu errado à crise internacional a partir de 2011 e acabou por provocar uma verdadeira “bagunça” na economia brasileira. Mecanismos de desoneração, teoricamente corretos, foram adotados de maneira equivocada e os estímulos ao consumo também se mostraram inoportunos.

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Ela aponta o que considera uma incongruência imperdoável do Banco Central: ao mesmo tempo em que elevou os juros, alimentou a expansão do crédito. Na visão de Monica, esse ziguezague desgastou a imagem do órgão. Em semana de Copom, o ataque da aguerrida economista certamente não será bem recebido pela diretoria do BC. Mas, quem sabe, anima o Copom a baixar os juros, numa demonstração de autonomia.

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