Nova vida para uma área degradada há seis décadas

Avaliada em R$ 90 milhões, descontaminação da Cidade dos Meninos sai em 2016

Por thiago.antunes

Rio - Um dos maiores e mais antigos passivos ambientais do país está perto de uma solução. Após 65 anos, a Cidade dos Meninos, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, será descontaminada. O trabalho começa em março de 2016 e deverá custar cerca de R$ 90 milhões. Os recursos virão da prefeitura e do Ministério da Saúde.

A área foi contaminada por hexaclorociclohexano (HCH), também conhecido como pó de broca, em 1950, quando o governo federal instalou uma fábrica para produzir o pesticida, na época usado para combater a malária e a doença de Chagas. A unidade foi desativada em 1960 e ficou completamente abandonada. Cerca de 300 toneladas do produto químico deixado no local passaram a contaminar o solo, água e animais, além de atingir os moradores.

Área onde funcionava a antiga fábrica do governo foi interditada em 1960. Pó de broca atingiu o solo e contaminou moradoresDivulgação

O Instituto Estadual do Ambiente (Inea) já emitiu Licença Prévia (LP) para o Ministério da Saúde, responsável pela descontaminação da área. A licença tem como objetivo nortear, por meio das condições de validade, o diagnóstico da qualidade do solo e água subterrânea da área. Após o diagnóstico será possível o estabelecimento do projeto executivo de reabilitação da localidade atingida.

O destino da área não foi definido. A NewFields, uma consultoria multinacional de meio ambiente e sustentabilidade, que atua na reabilitação de áreas contaminadas, anteriormente sem uso (antigas fábricas), garante que esses locais podem, inclusive, ser utilizados para conjuntos habitacionais. Daniel Moura, engenheiro ambiental especializado em Ciência da Água e do Solo pela Universidade da Flórida, explica que o procedimento em geral pode levar de um a 20 anos.

Igreja e casas da região foram construídas à base do produto tóxicoDivulgação

“É possível chegar ao resultado positivo de despoluição, mas o primeiro passo é investigar o nível de contágio, depois, estudar os riscos da área. Deve-se levar em consideração todos os fatores. Só depois deve ser feita a remediação, que é a fase da limpeza”.

Em 2011, um shopping de São Paulo foi interditado por causa de gás metano acima do permitido no solo, havendo risco de explosão. Um dreno foi instalado para retirar o gás, e o problema, resolvido. O Rio Sena, em Paris, degradado pela poluição industrial, hoje está recuperado.

Pesticida causa doença

Igrejas, ponte e casas foram construídas com o pó de broca, substância química tóxica que, misturada com água, vira pedra. Maria de Lourdes, que morou no local, contou que muitas pessoas chegaram a usar o produto como pesticida para plantas. “Eu usava para matar as formigas. Muitas mães usavam até na cabeça dos filhos para matar piolhos”, conta.

O que parecia benefício era altamente tóxico. “Esta exposição pode causar diversas doenças e problemas nos rins, fígado, sistemas nervoso e imunológico e nas glândulas endócrinas”, afirma a especialista Renata Liberino. Em 2005, a Fiocruz fez exames na população e a contaminação pelo produto foi constatada em cerca de duas mil pessoas. “Minha irmã faleceu de câncer. Acho um descaso do governo, que até hoje não tomou providências. Espero que agora resolva”, diz a moradora Denise Gonçalves.

Produto químico chegou a ser comercializado

Uma comunidade simples e pacata. Assim é a Cidade dos Meninos. Um cenário bem diferente da década de 1940, quando cerca de 1.400 crianças viviam no orfanato, que ficava ao lado da fábrica de pesticida. Foi por causa deste orfanato que o local se tornou conhecido como a Cidade dos Meninos.

Depois de a unidade ser fechada e de toneladas de pó de broca serem abandonadas ali, alguns meninos começaram a vender o produto químico. As autoridades só tomaram conhecimento da situação após denúncias da imprensa. O que restava do pó de broca foi retirado do local, e o orfanato, fechado.

A área onde fica a antiga fábrica foi interditada, mas o problema continua, já que muitas pessoas ainda vivem nas proximidades e continuam expostos ao perigo de ser contaminados. Para a toxicologista Renata Liberino, o risco é grande. “O maior risco está no que é produzido nesta área. Frutas, carnes e qualquer outro alimento que for produzido no local, além da água, podem estar contaminados”, adverte a especialista.

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