Por monica.lima

O pas de deux Estados Unidos-Israel parecia ensaiado para a posteridade mas ganhou, nos últimos dias, contornos de luta marcial. Uma mudança de ritmo que começou já nos primeiros meses do governo Obama e se acelerou graças aos passos em falso do primeiro ministro Benjamin Netanyahu. Agora, parte da população já torce por um enfrentamento mais acirrado que rompa de vez com a solidariedade cega, comprada a peso de ouro no congresso pelo grupo lobista AIPAC (American Israel Public Affairs Committee). Mas vamos por partes...

John Boehner, o republicano que preside o congresso dos Estados Unidos, costurou uma manobra com o embaixador israelense em Washington, Ron Dermer, para matar dois coelhos com uma cajadada só: enfraquecer Obama e fortalecer Netanyahu. Dermer é americano de nascimento. Antes de ingressar na equipe de Netanyahu, operava no circuito republicano em Washington. O golpe de mestre que os dois tramaram ameaça desandar. Eles decidiram atropelar a Casa Branca. Boehner convidou Netanyahu para fazer um discurso no Congresso duas semanas antes das eleições israelenses. Ele vai usar a tribuna para defender a adoção de novas sanções econômicas contra o Irã, medida que na opinião do presidente Barack Obama só vai servir para torpedear as negociações em curso a respeito do programa nuclear de Teerã.

Faz tempo que Israel se sente à vontade no congresso americano. Uma casa lotada de “amigos”. Em Washington, é tido como certo (ou era, até bem pouco tempo) que qualquer político que se atreva a contrariar os interesses de Israel não dura na cidade. Logo perde nas urnas e se aposenta mais cedo do que imaginava. O AIPAC se encarrega de financiar a campanha de um adversário e de secar a fonte que alimentava o traidor. Mas existe uma mudança em curso. Hoje, dois outros grupos, com matizes políticos mais ao centro e à esquerda, defendem os interesses de Israel no congresso americano e estão dividindo o espaço que até então era ocupado exclusivamente pelo AIPC.

O resultado é que a coesão do passado começa a mostrar rachaduras. A Casa Branca reagiu indignada ao desrespeito diplomático do convite direto do congresso ao primeiro ministro. Primeiro, avisou que Obama não receberá Netanyahu caso ele venha mesmo discursar para os deputados e senadores. Depois, um assessor de Obama que não se identificou, disse ao New York Times: “Tem certas coisas que você simplesmente não faz. Netanyahu cuspiu na nossa cara em público e isso não é forma de se comportar.

Ele deveria pensar que o presidente Obama ainda tem um ano e meio na presidência e que isso vai custar”. Se cortasse a ajuda militar a Israel ou mudasse a maneira como vota na ONU, os Estados Unidos mandariam um recado bem claro. Mas não é desse preço que ele está falando...

Essa não é a primeira vez que Netanyahu usa de um gesto dramático para fazer campanha contra o Irã. Em 2012 ele foi manchete no mundo inteiro quando ocupou o palco das Nações Unidas com um cartaz quase infantil inesquecível. Uma bomba estilo cartoon a ponto de explodir. Ele dizia que o Irã estava há menos de um ano da fabricação de uma bomba atômica. Dois anos e meio depois, a previsão catastrófica ainda não se confirmou. Mas o método de demonizar os aiatolás e fabricar o medo continua.

Acontece que dessa vez a receita desandou. Com a estratégia, Boehner e Dermer conseguiram dividir o congresso e vários democratas, tradicionalmente fiéis aos interesses de Israel, saíram em defesa de Obama. Phyllis Bennis, ativista e analista do Instituto de Estudos de Política já apontava essa tendência de mudança em julho passado. Ela publicou um artigo no jornal The Nation cujo título diz quase tudo: “Por que não é mais um suicídio político se opor ao lobby de Israel”. Ela destaca a importância de grupos como J Street, um lobby israelense ideologicamente mais ao centro, e do Vozes Judaicas pela Paz, mais à esquerda. Eles dividiram o discurso antes monopolizado pela turma da direita, representada pelo AIPCA. Esses grupos deixaram claro, para os congressistas americanos, que o eleitorado judaico nos Estados Unidos não é mais um bloco coeso. Eles podem mudar um pouco o discurso sem medo de perder o eleitorado. Um pouco o que aconteceu com Cuba. Quando os democratas se deram conta de que realmente não dependiam mais dos votos de meia dúzia de anticastristas da Flórida, foi possível anunciar o reatamento diplomático com a ilha.

Netanyahu está tentando reverter o erro e realinhar a coreografia. Nos últimos dias, telefonou pessoalmente para vários deputados e senadores democratas. Políticos com os quais sempre contou. Tentou se explicar, fazer valer a visão radical a respeito da melhor maneira de lidar com o Irã e para ressaltar que a sobrevivência de Israel não pode dividir os políticos em Washington. Ela deve contar com a unanimidade do congresso. Mas a recepção não foi muito calorosa. Netanyahu foi alertado que a controvérsia em torno do convite provocou uma mudança de votos no congresso. Vários democratas retiraram o apoio à imposição de novas sanções contra o Irã. No fim, o golpe contra a iniciativa diplomática do governo Obama pode acabar rendendo os votos que a Casa Branca tanto precisava.

Em Israel, Netanyahu também ouviu críticas. O país enfrenta uma crise séria de moradia e quanto mais ela se agrava, mais o primeiro ministro enfatiza os riscos que o Irã representa para a sobrevivência do estado de Israel. Coincidência ou não, essa dança do discurso político também foi apontada por jornalistas de Jerusalém como uma forma de desviar a discussão que interessa para um possível inimigo comum capaz de unir o eleitorado em torno de Netanyahu.

Ainda não se sabe se o tiro saiu mesmo pela culatra e se Netanyahu vai até o fim com o enfrentamento ou se vai dar meia volta e tentar um balé conciliatório.

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