Por diana.dantas

O relatório trimestral de inflação do Banco Central, divulgado na quinta-feira, veio confirmar o que já se sabia há algum tempo: o mês de abril ainda não começou, mas 2015 é um ano perdido para a economia brasileira. A equipe de Alexandre Tombini revisou a previsão para a inflação de 6% para 7,9%, reconhecendo pela primeira vez que ficará acima do teto da meta oficial (de 6,5%). E, também pela primeira vez, jogou a toalha em relação ao crescimento da economia, projetando uma retração de 0,5% no PIB. Além de mais realistas, as novas estimativas do BC aproximam-se dos números indicados pelo mercado financeiro. Pela pesquisa Focus da última segunda-feira, os economistas das principais instituições estão apostando em recuo de 0,83% neste ano e inflação de 8,12%. O índice atual, medido pelo IPCA, está acumulado em 7,7%, mas com a escalada dos juros e do dólar deve continuar em alta.

Os prognósticos são tão sombrios que trazem à lembrança famosa citação do clássico “A Divina Comédia”, de Dante Alighieri. Ao iniciar a caminhada pelos círculos do inferno, à beira do rio Aqueronte, os poetas Dante e Virgílio deparam-se com o seguinte letreiro em cima da porta: “Deixai toda a esperança, vós que entrais” (“Lasciate ogni speranza, voi che entrate”, em italiano). Nós, que estamos enfrentando esta quadra difícil e complexa da economia, também podemos deixar a esperança de lado. 2015 vai entrar para a história como o ano que terminou mais cedo. E ninguém fique espantado se, ao fim e ao cabo, os indicadores econômicos forem piores do que as atuais previsões. Diz o relatório do BC que “os avanços alcançados no combate à inflação ainda não se mostram suficientes”. Isso significa que o Comitê de Política Monetária não está satisfeito com a taxa de juros básica de 12,75%. Deve aumentá-la nas próximas reuniões.

Nas palavras do diretor do BC, Luiz Awazu, “a principal mensagem desse relatório é que a política monetária continuará vigilante para assegurar a convergência da inflação à meta de 4,5% ao longo de 2016”. Ou seja, haverá novos apertos no torniquete dos juros, mesmo que isso prejudique a taxa de crescimento do país. Para o BC, o desaquecimento é o preço exigido pelo combate à inflação. Tem-se, portanto, um raciocínio idêntico ao que o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, utiliza ao justificar a necessidade do ajuste fiscal e das mudanças dos benefícios sociais. O remédio é amargo, mas, sem a freada de arrumação, não é possível pôr a economia brasileira em ordem. Portanto, o BC e a Fazenda estão afinados e falam a mesmíssima língua.

A dificuldade está em convencer a sociedade de que não há outro caminho possível. Se a ortodoxia já está surtindo efeito em termos de equilíbrio das contas públicas, também mostra seu reflexo negativo no nível de emprego e de renda. A taxa de desemprego nas regiões metropolitanas de Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre passou de 5,3% para 5,9% entre janeiro e fevereiro, segundo o IBGE. O rendimento médio real chegou a R$ 2.163,20, o que representa queda de 0,5% ante o mesmo período de 2014. Na visão do Departamento de Estudos Econômicos do Bradesco, “a moderação nas condições de oferta e demanda no mercado de trabalho estão se traduzindo em desaceleração do rendimento”. O bicho pega exatamente aí: quando a receita de Tombini e Levy abala a esperança das famílias. Talvez esta seja a principal razão para o mau humor reinante.

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