Por diana.dantas

Demorou, mas aconteceu. No domingo, a presidente Dilma Rousseff falou em cadeia nacional de TV, por 15 minutos, para explicar os motivos do momento difícil que vive o país. Aproveitou as comemorações do Dia Internacional da Mulher. No trecho mais contundente, Dilma, se não fez o mea culpa que alguns esperavam, reconheceu que a opinião pública tem razão para estar decepcionada. “Você tem todo direito de se irritar e de se preocupar. Mas lhe peço paciência e compreensão porque esta situação é passageira”, afirmou. Em seguida, fez um apelo à união nacional em torno dos ajustes necessários para repor a economia no eixo: “Peço a vocês que nos unamos e que confiem na condução deste processo pelo governo, pelo Congresso, e por todas as forças vivas do nosso país – e uma delas é você!”, conclamou a presidente.

A considerar o teor do discurso, fica claro que Dilma vê razão de sobra para a irritação crescente de brasileiros e brasileiras. Atribuiu o mau humor às dificuldades da economia e ao sacrifício exigido pelo ajuste fiscal, no curto e médio prazo e, por isso mesmo, pediu paciência. Explicou que o Brasil sofre os efeitos da pior da economia mundial desde 1929 e garantiu que o governo gastou toda sua munição para preservar o crescimento e o emprego nos dois últimos anos. Mas chegou ao limite: “Absorvemos a carga negativa até onde podíamos e agora temos que dividir parte desse esforço com todos os setores da sociedade”. É exatamente aí que a porca torce o rabo. Muita gente – principalmente em São Paulo – acha que o governo cometeu erros e não está disposta a dividir esforços. Em vez de ouvir a fala oficial, preferiu ir para as janelas dos prédios bater panelas contra Dilma.

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Aí, quem se irritou foi a direção do PT. Em nota publicada no site do partido na madrugada de segunda-feira, o secretário nacional de Comunicação, José Américo Dias, avaliou que o “panelaço” da noite de domingo foi financiado pelos partidos de oposição, porém sem êxito. “As manifestações que aconteceram em algumas cidades brasileiras durante pronunciamento da presidenta Dilma Rousseff foram orquestradas para impedir o alcance da mensagem, mas fracassaram em seus objetivos”, diz o texto assinado por José Américo, que também é deputado estadual. Na mesma toada, o ministro-chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante, tentou desqualificar os protestos. Para ele, o que houve no domingo foi uma espécie de terceiro turno que não se justifica: “ No Brasil só tem dois turnos, não tem terceiro turno. As eleições acabam quando alguém vence.Nós vencemos as eleições pela quarta vez. Isso tem de ser reconhecido”.

Curiosamente, José Américo e Mercadante fazem uma avaliação bem diferente da que foi feita pela presidente, em seu discurso às mulheres. Enquanto Dilma reconhece que, diante das atuais circunstâncias, todos têm “direito de se irritar”, os dois petistas centram o foco nos partidos de oposição e dizem que os protestos não passam de orquestração política. Pelo jeito, o governo precisa afinar o discurso. Ou a impaciência da população é artificial ou tem origem no mau momento da economia. No discurso de domingo, a presidente ressaltou que “os noticiários são úteis, mas nem sempre são suficientes, muitas vezes até nos confundem mais do que nos esclarecem”. O raciocínio aplica-se como uma luva ao seu governo, que mais nos confunde do que esclarece.

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