Por diana.dantas

Encontrei semana passada, durante o Mobile World Congress, em Barcelona, o CEO da BlackBerry, John Chen. Sempre bem-humorado, estava lá para espalhar boas novas. Apesar dos tempos bicudos que a empresa tem vivido nos últimos anos, todos estão otimistas. Motivo 1) a BlackBerry descobriu que seu talento, mais do que fazer hardware, está no software — e está investindo pesadamente nisso. Motivo 2) novos modelos chegando ao mercado. 3) Os resultados da empresa melhorando a cada trimestre. 4) Ainda há muito a fazer, antes de comemorar.

O raciocínio geral é simples. A BlackBerry sempre esbanjou suas qualidades como um celular que une produtividade, comunicação e segurança. Não é bem disso que o povo gosta hoje, mas durante muitos anos seus clientes foram-lhe fiéis justamente por isso. Impossível esquecer, por exemplo, o afeto do Obama pelo seu BB.

Não por acaso, alguns dos modelos da BlackBerry chegaram mesmo a ser sonho de consumo da galera mais conectada. Mas aí veio a Apple com seu iPhone e botou empresas pra quebrar. O iPhone foi lançado em 2007 e se mostrou um sucesso imediato, mas ainda havia a BlackBerry pela frente. Em 2008, seus smartphones tinham 20% do mercado global, e a BB — na verdade, a canadense RIM, que é sua empresa-mãe — valia US$ 80 bilhões. Bons tempos que ficaram na saudade, por culpa não só da Apple, como também de Samsung e outras orientais.

Hoje, a RIM vale US$ 5 bilhões e tem apenas 0,5% do mercado de smartphones do planeta, segundo dados do FT. Poderia ter sido pior, como bem sabe a turma da Nokia, que sucumbiu e virou uma divisão da Microsoft — mas essa é outra história. E sim, a RIM quase quase naufragou de vez.
E o que a gente aprende com isso? O John Chen mostra que é possível ressuscitar empresas em dificuldades. O mais importante é tirar as gorduras e reforçar sua ‘vocação’ básica, e não ficar amarrando o passo, deixando que interesses de ocasião ganhem mais espaço que o comportamento do consumidor... O mecânico é importante, mas não adianta ele tentar derrubar o motorista, porque não vai levar o carro a qualquer lugar. (A Unisys, aliás, é outra gigante que sofreu e, por isso, tem ótimos casos a contar, e qualquer dia comento sobre ela).

Certo é o seguinte: a RIM descobriu que perdeu o bonde dos celulares por si. Mas mantém, com louvor, suas aplicações na área corporativa e, sobretudo, com segurança — que é um eterno ponto delicado. Por que não investir nisso, aproveitando-se não só da plataforma própria como também oferecendo para as concorrentes? Você mantém o nome rodando, não importa em que dispositivo. Muito bom, e tomara que dê certo. Afinal, a coisa anda feia para todos.

Lá em Barcelona, por sinal, Chen comentou algo que me chamou bem a atenção:
“Não tenho paciência para planos de cinco anos, ou algo assim. Claro que estamos aqui falando de um plano de longo prazo, mas temos que dar resultado a cada ano!”, disse o executivo.
Gostei disso. Melhor se os resultados vierem mês a mês.

TEMOS MUITO A APRENDER

O governo de Barcelona informou, no fim da semana, que a décima edição do World Mobile Congress na capital catalã movimentou pelo menos €436 milhões. Os passes variavam entre € 749 e s € 4.999. Mas teme-se que o contrato para realização da feira na cidade não seja renovado. Talvez Barcelona esteja ficando pequena demais para as 93 mil pessoas que, quando não estão circulando pelos 98 mil metros quadrados da Fira Gran Via, estão superlotando hotéis, bares, transportes etc. A movimentação na cidade foi tão intensa que os organizadores tiveram até que ‘importar’ limusines, porque não havia tantas disponíveis para as estrelas da tecnologia. <MC>Nos auditórios lotados falou-se muito sobre tudo. Ao lado de zilhões de lançamentos (muitos dos quais nem vão desembarcar no Brasil), ficou claro que o futuro nos reserva muitos negócios — se estivermos antenados.

Calcula-se que, até 2020, haverá mais um bilhão de terminais móveis circulando pelo planeta. Hoje são nada menos que 3,6 bilhões, com a população mundial na beirola de 7,3 bilhões. Enquanto no Brasil ainda engatinhamos no 4G, nas europas já se fala em 5G, o grande motor da internet das coisas, que promete conectar até a sua escova de dentes à rede mundial. Juro que vi isso. Os projetos são os mais delirantes e, no entanto, viáveis. Portanto, não vai faltar trabalho. Mas a pergunta que perdura é: Quem vai pagar, afinal, a conta da democracia digital? Ninguém quer coçar o bolso, claro. A começar pelo Mark Zuckerberg, que foi a Barcelona pregar, novamente, internet gratuita para todos. É um discurso bonitinho, mas para ele é moleza abraçar a causa, porque fatura muito aproveitando o suporte alheio. No caso, das operadoras, que se mordem para aliviar o tráfego pesado de dados em suas redes, sobrecarregadas por gigantes como YouTube, Netflix, Skype, Google e, claro, Facebook. Cada qual à sua maneira, fazem dinheiro pagando nada ou muito pouco pelo tráfego dos dados.

Não por acaso, um dos representantes das operadoras europeias chegou a dizer que Zuck parece o cara que vai pra sua festa, bebe os drinques todos, beija todas as meninas, e não leva nada pra ninguém. Zuck, aliás, foi questionado se ele não acha que se beneficia demais dessas facilidades. Na sua resposta, Zuck foi deveras sincero:
“Sim, acho”. A plateia adorou.


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