Por tamyres.matos

Rio - Apesar de o volume de lixo reciclado no município do Rio de Janeiro ter dobrado em relação a 2012, ainda é muito baixo: apenas 1,9% dos resíduos são recolhidos em coleta seletiva. Ou seja, uma cidade que diariamente produz 9 mil toneladas de detritos só reaproveita 170. Ao fim dos próximos três meses, porém, a expectativa da Comlurb é de que este índice suba para 5%, o que faria o município ultrapassar a também tímida média nacional, de 3%. Para isso, a prefeitura aposta na inauguração de três centrais de triagem no período.

O projeto prevê ainda que o total de lixo reciclado na cidade chegue a 25% até 2016. Para a ocasião, a meta nacional é de 20%. A primeira das estações de triagem, em Irajá, deverá ser entregue em novembro, após quase um ano de atraso. Ela será responsável por receber e tratar o lixo reciclável, que será recolhido de forma especial em três bairros: Irajá, Marechal Hermes e Deodoro. Para isso, garis passaram por capacitação de 15 dias e serão responsáveis por advertir os moradores sobre a nova forma de coleta, com o lixo orgânico (restos de comida) separado do reciclável (papel, metal, plástico e vidro).

Ivani%2C 56 anos%2C trabalhou por três décadas num lixão de São Gonçalo e%2C hoje%2C é auxiliar de serviços gerais numa central de tratamento de resíduos Estefan Radovicz / Agência O Dia

As estações de Bangu e do Centro, também previstas para o ano passado, deverão ser inauguradas em dezembro. Penha, Jacarepaguá e Campo Grande, só em 2014. A demora na entrega das primeiras centrais foi acarretada por imprevistos no projeto inicial. “Tivemos dificuldade em conseguir espaço, além do tempo para os processos de autorização”, explicou o diretor da Comlurb, Julio Cesar Santos, ressaltando que a companhia assumiu alternativas durante o período. “Investimos no aumento da frota de caminhões, contratação da mão de obra e criação de pontos de entrega junto às cooperativas”, explicou.

A expectativa é que até 200 catadores sejam beneficiados com a central de Irajá, onde terão a oportunidade de vender o material selecionado sem atravessadores. “Por meio destes profissionais, estamos conseguindo mandar todos os resíduos para a cadeia industrial. Antes, este material ia totalmente para o aterro”, explica.

Ao todo, cerca de R$ 50 milhões foram investidos na política de coleta seletiva carioca, apresentada há pouco mais de dois anos pela prefeitura em parceria com o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Social).

Clique aqui para conferir o gráfico da coleta seletiva no Rio e no Brasil.

Evento discute política de coleta seletiva

A política nacional de coleta seletiva será debatida na 1ª Conferência de Meio Ambiente do Rio, que será realizada nesta quinta-feira, na Quinta da Boa Vista. O evento é promovido por integrantes da sociedade civil, do setor empresarial e do poder público. Ainda em setembro, em Brasília, haverá um encontro nacional. O objetivo é consolidar as propostas apresentadas nas reuniões municipais.

Segundo a coordenadora de Resíduos Sólidos da prefeitura, Cláudia Fróes, que participa da organização do evento, a expectativa é mobilizar a população. “A gente sente que a comunidade está ávida a contribuir para ter a cidade mais sustentável ”, disse. Para Julio Cesar Santos, de maneira geral, a conferência também terá papel importância na conscientização dos principais produtores de lixo.

“Traremos questões que estão reprimidas há algum tempo para a indústria e o comércio, bem como as questões do engajamento da população”, explicou o diretor da Comlurb.

As inscrições para o encontro desta quinta-feira já estão encerradas.

Catadores dos antigos lixões têm vidas transformadas

Parte do programa de ampliação da coleta seletiva, as Centrais de Tratamento de Resíduos dão nova cara ao gerenciamento de lixo. Estas unidades contam com aterros sanitários bioenergéticos e estações de tratamento que minimizam os impactos ambientais. Em meio aos avanços, o novo cenário abrigou catadores dos antigos lixões que, hoje, veem suas vidas transformadas.

O CTR de São Gonçalo, na Região Metropolitana, ocupa o espaço onde funcionava o Aterro de Itaoca. Ivani Lúcia da Silva, de 56 anos, que trabalhou durante três décadas no local, comemora a oportunidade. “Eu trabalhava no lixão porque precisava alimentar meus quatro filhos, mas nunca tive vergonha”, afirma ela, que deu a volta por cima e agora trabalha como auxiliar de serviços gerais. “Está sendo melhor para mim, porque é uma coisa garantida, tem meu INSS, meu plano de saúde, e sei que um dia posso me aposentar”, explica.

Confiante, a profissional lembra com pouca saudade dos tempos em que peregrinava entre os resíduos do antigo aterro. “Era muito perigoso. Se eu me machucasse, não tinha onde recorrer. E sem trabalhar, não recebia nada”, conta.

Mesmo que a necessidade tenha a levado para o lixão, Ivani mostra reconhecer a importância ecológica do trabalho. “A reciclagem tirou dali muita coisa que poluiria os rios e o mangue”, destaca.

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