Por bferreira

Rio - Na lenda brasileira, o boto-cor-de-rosa se transforma num homem que seduz as moças à beira do Rio Amazonas. Na vida real, estes mamíferos têm sido vítimas de um massacre. Não há números oficiais, mas o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) detectou redução de cerca de 10% ao ano na população dos botos. A matança do maior golfinho de água doce do mundo ocorre principalmente porque sua carne é usada como isca na pesca do peixe piracatinga.

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“Informações preliminares dão conta de que a matança está ocorrendo em toda a calha do Rio Solimões, de Santarém, no Pará, e Tabatinga, no Amazonas. Mas isso ainda está sendo investigado. O Ministério Público Federal (MPF) está colhendo informações sobre os locais onde os botos estão mais vulneráveis e comunicará aos órgãos de fiscalização”, informou o procurador da República do MPF do Amazonas, Rafael da Silva Rocha, em entrevista no portal Ecodebate.

A caça do boto cor-de-rosa é proibida. Segundo Rocha, o objetivo do MPF é acabar com a prática ilegal e identificar os responsáveis, para que sejam punidos.

A piracatinga é considerada de baixo valor econômico e tem pouca aceitação no Brasil. A maior parte do estoque pescado seria exportado para outros países, como a Colômbia. Segundo Rocha, o MPF também está investigando “a cadeia de produção e comercialização da piracatinga, desde a captura do peixe até a mesa do consumidor.”

JACARÉS TAMBÉM EM RISCO

Convocados pelo Ministério Público Federal no Amazonas, representantes de entidades da classe dos pescadores, de órgãos públicos estaduais e federais e de entidades da sociedade civil voltados à proteção do Meio Ambiente participaram de audiência pública na sede do órgão, este mês, para discutir a matança dos botos.

Todos os participantes da audiência, em especial representantes dos institutos de pesquisas e órgãos de fiscalização, apontaram o uso da carne de botos como isca para a piracatinga como o principal motivo para a caça ao mamífero.

Estimativas do Instituto Piagaçu, responsável pelo gerenciamento de uma unidade de conservação no rio Purus, dão conta de que até 2,5 mil botos por ano podem estar sendo utilizados na pesca da piracatinga comercializada na região de Manaus.

“Além dos botos, um volume expressivo de jacarés têm sido mortos na região com a mesma finalidade. É preciso estender esse olhar também para os jacarés”, alertou o pesquisador do Instituto Mamirauá Robinson Botero-Aria, que participou de pesquisas sobre a pesca da piracatinga na região do Médio Solimões, próximo ao município de Tefé.

Pescadores querem uma alternativa

O presidente da Federação de Pescadores do Amazonas, Walzenir Falcão, declarou durante a audiência pública que a categoria é contra o uso de botos ou quaisquer outros animais de caça proibida como isca para pesca. “O que não queremos é que o pescador seja prejudicado com mais uma proibição de pesca, já que o problema não é a pesca da piracatinga. Defendemos a legalidade da atividade e todos membros da federação são orientados nesse sentido”, defendeu.

Falcão defendeu a união de esforços para buscar alternativa a ser usada como isca para a piracatinga. Superintendente do Ibama no Amazonas, Geandro Pantoja, também disse crer que a solução para acabar com o matança de botos é a parceria, proposta pelo MPF na audiência, entre os institutos de pesquisa, comunitários, pescadores e órgãos públicos de defesa do meio ambiente. Pantoja citou ainda a dificuldade de flagrar a caça aos botos como obstáculo para identificar os responsáveis pelo crime e rastrear o destino da piracatinga pescada com a carne deles.

Segundo a pesquisadora Sane Brum, do Instituto Piagaçu, foram identificados vários locais dentro da unidade de conservação no rio Purus nos quais barcos pesqueiros caçavam botos, com relatos de até 40 animais capturados em uma única investida. “Precisamos entender a cadeia produtiva e saber mais sobre a biologia da piracatinga, mas é preciso tomar medidas imediatas para proteger os golfinhos da Amazônia”, disse.

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