Prática comum de pegar muda é crime e dá cadeia

No Jardim Botânico do Rio, furto de plantas é rotineiro, principalmente por idosas

Por O Dia

Rio - Parece inofensivo, mas o tradicional costume de ‘arrancar uma mudinha’ para levar para casa é crime, se praticado em espaços públicos. Ainda mais em institutos federais, como o Jardim Botânico do Rio de Janeiro (JB), em que o delito prejudica pesquisas, arrisca espécies raras e devasta ecossistemas. Mesmo assim, acredite: há quem use as mais ousadas artimanhas para burlar as regras e afanar uma ‘lembrança’.

Coordenador de Coleções Vivas do Jardim Botânico, Ricardo Reis afirma que tentativas de roubo de plantas ocorrem semanalmente. “Em 70% dos casos, o delito é cometido por visitantes, sobretudo senhoras idosas. A maioria é impedida por seguranças”, denuncia.

Mas existem ocasiões em que as ocorrências são feitas por ‘especialistas’. “Colecionadores e contrabandistas viajam o mundo à procura de espécies exóticas. Alguns chegam a sabotar exemplares para garantir reserva de mercado”, diz Ricardo Reis.

Bromeliário tem policiamento constante por ser um dos mais visados. Tentativas de retirada de espécies são flagradas todas as semanasFernando Souza / Agência O Dia

Foi o caso da palmeira-laca, rara espécie de árvore que ostenta uma coroa de flores avermelhada. “Durante anos, as ramificações foram cortadas por um colecionador mal-intencionado, para garantir que tivesse mais exemplares que nós”, conta Cláudio Nicoletti.

Pesquisador do Jardim Botânico, ele conta histórias ‘interessantes’ sobre furtos no parque. “Há anos roubaram uma espécie de canabis usada em um estudo. Brincamos com a pesquisadora responsável que teriam ‘fumado’ seu objeto de análise”.

Segundo o biólogo, os alvos mais comuns são as coleções temáticas, como o bromeliário, o orquidário e o cactário, em que as plantas são pequenas e expostas em vasos, o que facilita a ação. “Dessas, as mais procuradas são as orquídeas Katilea lobata, Katilea shilleriana e Alcantarea imperialis, pelo caráter ornamental, muito valorizado”, explica.

Descoberta a ação, a coleta indevida de plantas pode ser enquadrada como crime ambiental, com pena de multa e detenção de três meses a um ano. Pode ser também considerada furto, com punição com reclusão de um a quatro anos e multa.

O Jardim Botânico não é o único que sofre com o problema. A situação ocorre em parques de vários países. Por isso, Nicoletti alerta: “Todo o mundo sabe que não pode ter animais silvestres em casa. Com as plantas é a mesma coisa. Tirá-las da natureza para viver em cativeiro não é normal e causa danos ao ambiente”.

As orquídeas estão entre as mais visadas por colecionadores e contrabandistas que agem no mercado negroFernando Souza / Agência O Dia

Câmeras vão monitorar todas as áreas do parque

Embora sejam raros, furtos ainda são resgitrado no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, a despeito da segurança. Mas a expectativa é que eles estejam com os dias contados. Está em fase final projeto que vai instalar 166 câmeras em pontos considerados estratégicos do parque, nas áreas de arboreto e do horto florestal.

A previsão é que as câmeras passem a funcionar até o mês que vem. “A iniciativa vai complementar o gradual aumento da segurança nos últimos três anos e garantir que o ambiente esteja livre de furtos, mesmo com o aumento das visitas na Copa e na Olimpíada”, afirma o coordenador Ricardo Reis.

Para o biólogo Cláudio Nicoletti, é fundamental que os visitantes saibam que as plantas são para observação, “Recebemos 1 milhão de visitantes por ano. Não dá para todo o mundo levar um pedacinho para casa”, diz.
Para amantes de plantas, a solução é comprar as mudas no horto, durante todo o ano, ou no orquidaRio, montado a cada semestre. Com isso, evita-se dano ao ambiente incentiva-se o produtor rural.

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