Diversidade climática na Copa do Mundo surpreende europeus

Efeitos do aquecimento global provocado pela devastação de florestas podem estar elevando ainda mais as temperaturas no Norte e Nordeste, segundo estudiosos

Por O Dia

Rio - O apito final do jogo entre Itália e Uruguai, pela primeira fase da Copa do Mundo, não selou apenas a eliminação precoce da Azzurra do torneio. Em meio a série de justificativas apresentadas pelo treinador da equipe Cesare Prandelli para a derrota, uma delas ganhou as rodas de debate e acendeu um alerta global: as altas temperaturas nos estados das regiões Norte e Nordeste, em pleno inverno brasileiro.

O ‘choro’ dos eliminados, seguido por ingleses e portugueses, reflete a diversidade climática brasileira, uma velha questão que aqui se aprende na escola, e que acabou surpreendendo os europeus. Mas segundo ambientalistas e meteorologistas ouvidos pelo DIA, as queixas dos estrangeiros têm fundamento e merecem atenção. Para eles, os efeitos do aquecimento global devem acentuar ainda mais as diferenças climáticas nos próximos anos no país.

Clima quente no Mundial surpreende europeusAgência O Dia

O ecologista Sérgio Ricardo de Lima, especialista em gestão ambiental, explica que a produção industrial brasileira tem impactado — e elevado — as temperaturas em alguns dos estados que sediam jogos da Copa. “A expansão agrícola desordenada e sem fiscalização tem desmatado áreas da Floresta Amazônica e do serrado brasileiro. Apesar do agronegócio ser o principal ‘motor’ da economia nacional, é inegável que o desmatamento de áreas de vegetação nativa tem acentuado os sintomas do aquecimento global e destruído a biodiversidade”, explica.

“Se os impactos sobre o meio ambiente seguirem o ritmo atual, em vinte anos, a temperatura global pode ter uma elevação de 1,5ºC. Isto seria suficente para acabar com a maioria das populações ribeirinhas por alagamentos”, completa o ecologista.

Declarações preconceituosas à parte — como a do treinador da seleção inglesa Roy Hodgson, que disse, antes da Copa, que temia por “treinar na selva”—, os contrastes climáticos brasileiros poderiam fazer com que seleções europeias escolhessem locais de temperaturas mais próximas às de seus países ao menos para ficar hospedadas. “Para os europeus, estados do Sul e Sudeste, que recebem mais massas de ar frio do Polo Sul, proporcionariam estadias mais agradáveis e adequadas”, lembra Marcelo Pinheiro, meteorologista do site do Climatempo.

Português Cristiano Ronaldo foi uma das estrelas da Copa que sofreram com o calor no Centro-OesteReuters

País continental, quente em cima e frio embaixo

O fator determinante que explica as baixas temperaturas nos estados do Sul e Sudeste, durante o inverno, são as frequentes massas de ar polar que chegam com as frentes frias. Essas massas, no entanto, não atingem o Centro-Oeste, o Norte e o Nordeste, pela distância. “São peculiaridades de um país continental. Estados próximos à Linha do Equador sofrem mais com calor”, explica o meteorologista.

Além do calor habitual em cidades como Manaus, Marcelo lembra de outro fator capaz de elevar a sensação térmica: a umidade relativa do ar. “Nos estados do Norte, onde as chuvas são mais frequentes, a umidade do ar gira em torno de 60%, o que faz com que a sensação de calor pareça ser, em média, 4ºC mais alta do que a registrada pelos termômetros”, garante.

A umidade mais baixa do ar faz com que Cuiabá, sede da Copa no Centro-Oeste, aparente ser um local de temperatura mais agradável. “A umidade fica abaixo de 30%. Embora as temperaturas sejam parecidas com as de Manaus, a adaptação torna-se mais fácil”, garante. No Nordeste, as chuvas volumosas de junho — como as que provocaram alagamentos em Natal e Recife na última semana — ajudam a atenuar o calor e garantem dias com mais nebulosidade.

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