Por O Dia

Rio - Os anos de chumbo no Brasil deixaram profundas marcas na sociedade brasileira. Além de milhares de vítimas, foram pouquíssimas respostas e uma cultura de desrespeito às liberdades e direitos humanos que ainda se faz presente, 50 anos após o golpe militar que depôs o presidente João Goulart.

Mas a triste herança da ditadura não conseguiu impedir que, 50 anos depois do golpe, três brasileiros ligados ao período estivessem na corrida presidencial: Dilma Rousseff, ex-guerrilheira, presa e torturada; Aécio Neves, neto de Tancredo Neves, um dos personagens da redemocratização; e Eduardo Campos, neto do ex-governador de Pernambuco Miguel Arraes, preso dia 1º de abril de 1964 por apoiar as ligas camponesas e operários do seu estado.

“A ditadura provocou esta ausência de lideranças. A única surgida foi o Lula, e mesmo assim no seu final, já na distensão. Durante o período militar, o Congresso era fictício e os movimentos sociais, completamente asfixiados”, conta Cid Benjamin, que liderou parte da guerrilha urbana contra os militares, no fim dos anos 60, e passou dez anos exilado no exterior.

Os candidatos à eleição de 5 de outubro foram dolorosamente marcados pelo período. Dilma Rousseff participou ativamente da luta contra o regime militar.

A presidenta Dilma Rousseff%2C hoje com 66 anos%2C fez parte da resistência armada à ditaduraEfe

Já o senador Aécio Neves, do PSDB, principal partido de oposição ao governo petista, viu o avô Tancredo Neves fazer a política de boa vizinhança, como oposição à ditadura, sem poder se manifestar claramente.

O atual governador de Pernambuco, Eduardo Campos, atua no mesmo campo político do avô, a esquerda. Após apoiar os governos Lula e Dilma, optou por rumos maiores ao lado de outra ex-petista: a ex-ministra Marina Silva.

Para o historiador Jorge Ferreira, da Universidade Federal Fluminense e autor do livro “João Goulart: uma biografia”, a retirada de cena dos líderes políticos foi um imenso prejuízo.

“Leonel Brizola, Miguel Arraes, Jango, Juscelino Kubitschek e até mesmo Carlos Lacerda expressavam o pensamento de grandes parcelas da sociedade”, conta Jorge Ferreira. “No movimento sindical, lideranças autênticas dos trabalhadores foram perseguidas e obrigadas a viver no ostracismo.”

Outro dano causado pela ditadura à vida política brasileira foi a extinção dos partidos políticos tradicionais para a criação de dois únicos: o Movimento Democrático Brasileiro (MDB) e a Aliança Renovadora Nacional (Arena) que, pela subserviência ao regime, tinham os apelidos de “Partido do Sim” e “Partido do Sim, Senhor”, respectivamente.

“Havia o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), o Partido Social Democrático (PSD) e a União Democrática Nacional (UDN), e algo difícil de se construir: o eleitor fiel ao partido. A ditadura pôs fim a isso”, explicou Jorge Ferreira.

O processo de reabertura política do país é um exemplo claro da ausência da produção de líderes durante o período ditatorial, tendo sido construído por políticos da velha guarda, como Ulisses Guimarães, ministro da Indústria e do Comércio no início dos anos 60, e Tancredo Neves, ex-ministro da Justiça e Negócios Exteriores do ex-presidente Getúlio Vargas, além de primeiro-ministro durante um curto período parlamentarista, após a renúncia de Jânio Quadros.

“Os nomes de destaque ao final do regime eram Leonel Brizola e Miguel Arraes, importantes lideranças entre as esquerdas no governo João Goulart, ou no PSDB, com José Serra e Franco Montoro, políticos que iniciaram suas carreiras na época do governo João Goulart. Podemos ainda citar José Sarney, que já governava o Maranhão na época de Jango. Ou seja, entre o governo João Goulart e a redemocratização dos anos 1980, as lideranças políticas não se renovaram”, completou Jorge Ferreira.

Aécio lembra das histórias que ouvia de Tancredo

Criado numa família que respirava política, o senador Aécio Neves (PSDB) contou ao DIA que decidiu seguir a carreira de Tancredo Neves durante o processo de redemocratização, quando acompanhou de perto o avô, um dos principais personagens daquele momento, em suas andanças pelo país.

Aécio e seu avô Tancredo%2C numa das viagens em campanha pela redemocratização do Brasil%2C em 1985 Reprodução

“Sou da geração pós-ditadura. E tive a sorte de ser um espectador privilegiado do reencontro do Brasil com a liberdade. A democracia nos permite decidir o nosso destino. E este é o nosso maior patrimônio. Qualquer governo que venha a ameaçar as instituições democráticas deve ser combatido com todas as forças”, disse Aécio.

O senador tucano compartilha a tese de que a ditadura retardou o amadurecimento político do país. “Sem dúvida, desestimulou e impediu que muitos brasileiros entrassem na vida pública, que militassem politicamente. Muitos que poderiam hoje estar na política morreram ou desistiram da vida pública. Esta talvez tenha sido a pior herança e agora precisamos correr atrás para compensar os anos em que ficamos estacionados”, completou.

Aécio lembrou, ainda, dos assuntos que ouvia na casa do avô, durante a ditadura.

“Ouvia os relatos da tortura, das atrocidades cometidas. Ouvia em casa, do próprio Tancredo, que esteve sempre ao lado de JK até ele ir para o exílio. Foi Tancredo o único a votar contra Castelo Branco, o único homem público a discursar no enterro do Jango. Era um ambiente de generosidade, de espírito público. Não havia o divórcio entre políticos e sociedade que há hoje. Caminhávamos todos juntos”, disse.

 Em discurdo no Senado antes de ser eleita presidenta, quando estava no comando da Casa Civil, Dilma Rousseff disparou contra aqueles que apoiavam a ditadura.

“Qualquer comparação entre a ditadura e a democracia brasileira só pode partir de quem não dá valor à democracia brasileira. Eu tinha 19 anos, fiquei três anos na cadeia e fui barbaramente torturada. Não há espaço para a verdade, e é isso que mata na ditadura. Porque algumas verdades, até as mais banais, podem conduzir à morte”, disse a presidenta à época, sem conseguir conter as lágrimas. Já Eduardo Campos começou a carreira como presidente do Diretório Acadêmico da faculdade de Economia da Universidade Federal de Pernambuco. Em 1986, virou chefe de gabinete do avô, que viu nele seu sucessor.

Dilma Rousseff

A presidenta Dilma Rousseff, hoje com 66 anos, fez parte da resistência armada à ditadura, em grupos de esquerda como o Colina (Comando de Libertação Nacional) e VAR-Palmares (Vanguarda Armada Revolucionária Palmares). Passou quase três anos presa, entre 1970 e 1972, tendo sido duramente torturada no DOPS (Departamento de Ordem Política e Social). Reconstruiu a sua vida política no PDT de Leonel Brizola, nos anos 80, até filiar-se ao PT, em 2001.

Aécio Neves

A presidenta Dilma Rousseff, hoje com 66 anos, fez parte da resistência armada à ditadura, em grupos de esquerda como o Colina (Comando de Libertação Nacional) e VAR-Palmares (Vanguarda Armada Revolucionária Palmares). Passou quase três anos presa, entre 1970 e 1972, tendo sido duramente torturada no DOPS (Departamento de Ordem Política e Social). Reconstruiu a sua vida política no PDT de Leonel Brizola, nos anos 80, até filiar-se ao PT, em 2001.

Eduardo Campos

Eduardo Campos beija a testa do avô Miguel Arraes%3A lições aprendidas durante o período em que foi chefe de gabinete do governador de Pernambuco Reprodução

Quando Eduardo Campos nasceu, em 1965, o Brasil já vivia a ditadura militar. Seu avô, Miguel Arraes, havia sido deposto um ano antes do governo de Pernambuco, onde adotava políticas que incomodavam as oligarquias locais.

Filiou-se ao partido de Arraes, o Partido Socialista Brasileiro (PSB), em 1991, e sempre se destacou como parlamentar atuante, seja em Pernambuco ou no Congresso Nacional. Foi ministro da Ciência e Tecnologia do governo Lula em 2004.

Últimas de _legado_Notícia