Por O Dia

Rio - A poucos dias do golpe militar, o presidente João Goulart dava mais um passo para regulamentar a profissão de jogador de futebol. Curiosamente, na mesma época, um garoto se aplicava nos estudos para cursar Medicina, alimentando ainda o sonho com o glamour do mundo da bola. Era março de 1964, quando o Torneio Rio-São Paulo, então a principal competição do país, estava começando, tendo Pelé e Garrincha como atrações. Alguns anos depois, aquele menino se tornaria médico e faria história no Botafogo com o apelido de Afonsinho. Após muitas batalhas, foi o primeiro a ganhar o direito de ser dono do próprio passe, de decidir o próprio destino.

O Brasil vivia no esporte um dos períodos mais gloriosos de sua história: a seleção de futebol havia erguido o troféu das Copas de 1958 e 1962; o basquete também vinha de dois títulos mundiais; nas quadras de tênis, Maria Esther Bueno era a número um do planeta; no boxe, Éder Jofre, campeão dos galos, tinha a idolatria nacional.

Ao tomar o poder, as Forças Armadas viam no brilho dos atletas importante meio de propaganda política. E, com o passar do tempo, os militares começaram a ocupar cargos estratégicos em órgãos esportivos nacionais e regionais, além dos clubes. “A ditadura interferiu de forma direta no futebol, com militares em funções de comando nos clubes, nas comissões técnicas. Tinham ingerência até nos contratos dos atletas. Havia espécie de padrão, com direitos e deveres”, conta Afonsinho.

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Na avaliação do professor de História do Esporte da PUC-Campinas José Moraes Neto, ao se apoderar de confederações e conselhos, a ditadura deixou triste herança: “Esse viés autoritário pode ser visto até hoje com a perpetuação de dirigentes esportivos nos mais diversos níveis.” Afonsinho acrescenta: “Houve um atraso no desenvolvimento do esporte. A CBF, com suas imposições, equivale ao CND (Conselho Nacional do Desporto) daquele período.”

A Copa de 1966, na Inglaterra, foi um fiasco para a Seleção. A eliminação na primeira fase provocou intervenção mais incisiva do regime, que impôs profissionais da Escola de Educação Física do Exército. Em outubro de 1969, o general Emílio Garrastazu Médici assumiu a Presidência da República e passou a governar com mão de ferro, apoiado nos plenos poderes do Ato Institucional Número Cinco (AI-5), editado no governo Costa e Silva, quase um ano antes, o mais duro golpe contra a democracia brasileira. Após as Eliminatórias para a Copa de 70, o comunista João Saldanha foi demitido do comando da Seleção – Médici teria imposto o nome do atacante Dario e o treinador, retrucado: “Ele escala o ministério, eu, a Seleção”.

Com Zagallo no comando e tendo Dario como figura decorativa no elenco, o time fez campanha espetacular e conquistou o tri no México, pela primeira vez com transmissão ao vivo. Cenário perfeito para propagar o milagre econômico – crescimento apoiado em grandes obras. Na mídia, slogans ufanistas como ‘Brasil, ame-o ou deixe-o’. Mas, nos porões da opressão, tortura e morte, como retrata ‘Pra Frente Brasil’, filme de Roberto Farias, de 1981, que tem a conquista no México como pano de fundo. “Ganhamos o Festival de Gramado, mas o filme ficou um ano censurado. Era ano de eleições e de Copa (82). Ainda estávamos na ditadura (governo João Figueiredo), e a censura nos deu enorme prejuízo. O noticiário sobre o filme esfriou. Foi visto por 2,5 milhões de espectadores, mas poderia ter chegado a 5 milhões”, diz Farias.

A conquista na Copa de 70 foi a última usada para camuflar barbaridades da ditadura. Já o futebol continuou sendo instrumento político, com Brasileiros abarrotados de times sem expressão. Em 1982, apesar de uma geração brilhante, a Seleção caiu para a Itália de Paolo Rossi no Mundial. Três anos depois, quem caía, muito tardiamente, era a ditadura.

'O passe livre foi minha maior viatura sobre a ditadura'

Careca nos tempos de calouro de Medicina na Uerj, o garoto Afonsinho (foto ao lado) ganhou ares rebeldes no fim dos anos 60 ao deixar o cabelo e a barba crescerem: “Meu cabelo comprido e a barba eram próprios de pessoas que não concordavam com a ditadura.” Da mesma forma que desfilava seu talento nos gramados, o meia se indignava com a situação do país e não admitia o seu ‘encarceramento profissional’. Por isso, lutou, abriu portas e conseguiu na Justiça ser o primeiro jogador de futebol profissional a ter o passe na mão.

“Tenho consciência de que a minha luta não foi em vão. Hoje sou um coroa de 66 anos e vejo que sou reconhecido devido ao acerto de minha luta. Comprei uma briga com o pessoal do Botafogo e não sucumbi às adversidades. Mesmo após ter ganho o passe livre, consegui atuar em grandes clubes (Vasco, Santos, Flamengo e Fluminense)”, lembra. “Ter jogado com o passe livre foi a minha maior vitória pessoal sobre a ditadura, me fortalece até hoje”, confirma.

Nos clubes pelos quais passou, Afonsinho pôde ver de perto as mudanças impostas pelos governos militares: “Era um período difícil. Pessoas saídas dos campos foram afastadas dos cargos de treinador, porque havia a ideia de que não tinham preparo para cargos de comando. Por que Didi ou Zizinho, craques, não tiveram oportunidade na comissão técnica da Seleção?”, questiona. E diz que não houve uma resistência mais organizada dos jogadores à ditadura: “Havia alguns jogadores contrários ao movimento que, ao seu modo, mostravam isso. Mas existia o medo da repressão, da tortura.”

Afonsinho só lamenta não ter conseguido vestir a camisa da seleção brasileira: “Nunca fui convocado, tenho certeza de que devido ao meu posicionamento político, pelo fato de não me curvar. Mas, francamente, eu não me arrependo. Fiz a opção correta. Fiquei sem perspectivas de defender a Seleção porque me posicionei.”

Família Antunes sofreu o drama da tortura

O sobrenome Antunes Coimbra não está ligado somente às glórias do futebol. Irmão dos craques Zico, Edu e Antunes, Fernando, o Nando, 68 anos, viveu momentos de terror nas mãos de torturadores e entrou para a história como o primeiro jogador de futebol anistiado.

Nando conta que, em 1963, ainda nos juvenis do Fluminense, passou em concurso para dar aulas no Programa Nacional de Alfabetização. O problema é que o PNA –- criado pelo educador Paulo Freire – foi considerado subversivo pelos militares, que passaram a perseguir vários profissionais. Começava ali o drama de Nando.

Ele passou a peregrinar após deixar o Fluminense por ter estourado a idade nos juvenis. Vice-campeão no Espírito Santo, foi ‘convidado’ a deixar o time pelo qual jogava, após a chegada de um militar ao clube. Tempos depois, o mesmo aconteceu no Madureira. No Ceará, teve dias mais tranquilos, se destacou e foi tentar a vida em Portugal. Em 1968, Nando embarcou para assinar contrato com o Belenenses. Ainda no hotel, foi procurado por dois homens da polícia política do ditatorial governo Salazar: “Falaram que sabiam da minha história, que estavam de olho em mim e me ameaçaram.” No clube, o presidente mencionou o episódio e o destratou: “Chorei muito. Sozinho em Portugal, só queria voltar para casa. Tive muito medo. Resolvi parar de jogar.”

No Brasil, viveu o martírio da tortura. Em agosto de 1970, a prima Cecília Coimbra, hoje diretora do grupo Tortura Nunca Mais, foi presa com o marido. Nando foi chamado para ajudar a tia que estava passando mal e levou um médico até lá. Pouco depois, ele e três primos foram presos pela Polícia do Exército: “Foram quatro dias, com interrogatórios, capuz na cabeça, tortura.” Edu e Antunes – também jogador à época – foram para a porta da PE. “Eles ficaram de plantão lá dois dias. Antunes fez escândalo, até que me soltaram. Mas eu fiquei fichado e passei a ser perseguido.”

Nando não tem dúvidas em afirmar que a ditadura tirou de Edu, um dos melhores jogadores do país à época, uma verdadeira chance na seleção brasileira. “O João Saldanha, técnico, deixou claro que havia um veto à família Coimbra.” Zico também ficou fora da Olimpíada de Munique, em 1972, apesar de ser o craque do time e de o treinador da seleção olímpica, Antoninho, ter pedido pessoalmente para que não se profissionalizasse (só amadores disputavam os Jogos): “Foi a maior decepção na carreira do meu irmão. O Zico quase desistiu do futebol.”

O alívio para Nando só veio em dezembro de 2010, quando foi anistiado. No ano seguinte, recebeu bela homenagem do Ceará, clube que defendeu em 1968: “Foi muito legal. Meu crime foi ser professor, mas ganhei o reconhecimento em vida. Hoje, sou aposentado pelo MEC e anistiado.”

Colaborou Flávio Almeida

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