Por O Dia

No artigo da semana passada, eu mencionei que havia um descompasso entre crescimento da oferta e da demanda na economia global, e que ele estaria se refletindo no comércio internacional. Na mesma terça-feira, a Organização Mundial de Comércio apresentou, em uma nota de imprensa (https://www.wto.org/english/news_e/pres14_e/pr721_e.htm) em analisa o ano de 2013 e apresenta algumas previsões. Apesar da melhora do crescimento do comércio, a OMC chama a atenção para dois fenômenos: primeiramente a expansão atual e esperada é muito inferior à do período anterior à crise, e, além disso, insuficiente para reverter a queda da relação entre comércio e crescimento global. Estes fenômenos podem refletir algo conjuntural. Mas se forem tendências, podem indicar que as previsões otimistas sobre o fim da crise global são, no mínimo, exageradas.

A crise de 2008 foi inicialmente devastadora sobre o comércio internacional: em 2009, a queda das exportações globais foi superior a 10%. Mesmo sendo acompanhado por uma recuperação da mesma proporção no ano subsequente, o comércio internacional nunca recuperou a tendência de crescimento que vinha tendo desde pelo menos 1993. Por exemplo, se a previsão otimista de crescimento de 4,7% em 2014 se confirmar, o crescimento dos fluxos internacionais de comércio continuará a ser, neste ano, inferior ao período 1993-2013 (5,3%). Será também muito menor do que o crescimento no período 1990-2008 (6,0%), considerado como auge do processo de integração comercial imediatamente anterior à crise.
São duas razões básicas para este resultado: a taxa ainda relativamente elevada do desemprego nas economias europeias, e o fato da recuperação do emprego nos Estados Unidos estar se dando com base em menor remuneração do trabalho. Esta afirmação poderia parecer paradoxal, por pelo menos duas razões. Primeiramente, a participação relativa destas economias no comércio internacional vem declinando - enquanto, por exemplo, como foi alardeado na imprensa, a China recentemente foi alçada à categoria de maior parceiro comercial “individual” do mundo, com uma soma de exportações (US$ 2,2 tri) e importações (US$ 2 tri) o que corresponde a 11% do total global. Em segundo lugar, nos últimos meses, tem sido amplamente noticiado a melhoria das expectativas (por exemplo, dos economistas do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial) sobre a recuperação dos EUA e da Europa.

A resposta para este aparente paradoxo se relaciona a três aspectos do crescimento global recente. Em primeiro lugar, devemos considerar que a demanda por bens de consumo por parte das classes médias americanas e europeias foi o grande motor “dinâmico” da demanda global nas duas décadas anteriores à crise. Esta demanda foi aquela que estimulou o crescimento das exportações chinesas — e das economias asiáticas em geral — que, por sua vez, colocou em marcha os investimentos em capacidade produtiva, infraestrutura e logística naquelas economias. A “segunda derivada” desta cadeia foi a que gerou simultaneamente a enorme expansão da demanda por insumos básicos - ou o boom de commodities — de países exportadores de bens primários; e também das vendas de bens com valores agregados mais elevados (por exemplo, os bens de capital alemães, japoneses, e americanos). Em segundo lugar, se considerarmos a União Europeia como uma entidade única, ela passa a ter uma relevância muito maior - com cerca de 15,1% do comércio global — enquanto a China passa a representar cerca de 13,8% e os Estados Unidos cerca de 13%. Em terceiro lugar, como temos mencionado com frequência nesta coluna, a recuperação da demanda, tanto na Europa como nos Estados Unidos, tem sido caracterizada por aspectos pouco favoráveis — em dois mercados cruciais. No de trabalho, observam-se taxas de desemprego ainda muito elevadas na Europa; e uma recuperação do emprego nos Estados Unidos baseado em trabalho de baixa qualidade e remuneração. No mercado financeiro, a demanda por crédito ainda continua reprimida pelo alto nível de endividamento das famílias; enquanto que a oferta de financiamento, ainda que melhor, continua apresentando graus de aversão a risco superior ao período imediatamente pós- crise.

Estes legados da crise podem explicar outro fenômeno preocupante: a queda da relação entre crescimento do comércio e dos PIBs globais. Até 2008 esta relação girava em torno de 2 - ou seja, cada 2% de crescimento do primeiro era acompanhado de 1% do segundo. Em 2009, cunhado pelos economistas como o ano do “grande colapso comercial”, este índice caiu para 1,6 — o que se deveu especialmente à retração do financiamento do comércio, como subproduto do derretimento do sistema financeiro internacional. A forte reação das autoridades monetárias no mundo inteiro no sentido de desbloquear o financiamento, e evitar uma retração ainda maior do produto e da demanda global, fez com que este índice se recuperasse até 2011. Porém, desde então, vem caindo ano após ano. Se as expectativas “otimistas” da OMC se confirmarem, em 2015 ele estará em torno de 1,5.
Não por outra razão, o otimismo da nota da OMC é marcado por diversos alertas. Em particular, chama a atenção para os riscos de “turbulência financeira” em países emergentes, que poderiam ser geradas por uma mudança muito abrupta da política monetária nos Estados Unidos. Ironicamente, como aponta a OMC, uma recuperação muito acelerada da maior economia mundial poderia ser o gatilho para uma aceleração da chamada “normalização” da política monetária (o “tapering” ). Esta tenderia a elevar as taxas de juros norte-americanas, ao longo de toda a curva de rendimento, causando instabilidade e saídas de capitais intensivas nas economias emergentes. Se isto ocorrer, o comércio internacional, que está em marcha lenta, pode começar a andar de ré.

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