Por O Dia

Por orientação do advogado Sérgio Bermudes, o ex-bilionário Eike Batista manteve-se em silêncio absoluto desde que as empresas do Grupo X entraram em processo de recuperação judicial no segundo semestre do ano passado. Após a queda de seu império, ele passou a evitar contatos com a imprensa. Antes exibicionista e falastrão, o empresário prudentemente saiu de cena. Mas, no último fim de semana, Eike decidiu interromper o jejum midiático, com uma entrevista exclusiva ao jornal americano “Wall Street Journal”. Em conversa pelo telefone, disse que não está preocupado com a apuração pela Polícia Federal de crimes financeiros que teria cometido. “É excelente que tudo seja esclarecido. Estou muito calmo. Deixemos que eles investiguem”, afirmou.

Seria melhor que tivesse continuado em silêncio, pois voltou a mostrar a arrogância de sempre. Ao contrário do que possa imaginar Eike Batista, não lhe cabe o arbítrio de deixar ou não deixar a PF investigar seus eventuais crimes. Personagem de uma reviravolta inédita no mundo dos negócios, ele é alvo de investigações policiais e ponto final. Sem citar o nome do empresário, a PF informou, em nota à imprensa, que o alvo das investigações é “o acionista controlador de uma empresa que atuou na área de petróleo”. E arrolou os três crimes em que poderá ser enquadrado: manipulação de mercado, uso de informação privilegiada (insider trading) e lavagem de dinheiro. Como se sabe, o acionista controlador em tela vendeu o que não tinha para entregar. E assim iludiu milhares de pessoas.

Eike, porém, garantiu ao WSJ que não fez nada de errado ao negociar ações da petroleira OGX, atual OGPar. “Todas as vendas foram declaradas. Tudo relacionado às minhas companhias de capital aberto sempre foi informado ao mercado”, proclamou o homem que, por um breve período, foi detentor da oitava maior fortuna do mundo. Suas declarações, no entanto, não conferem com o resultado de investigação realizada pela Comissão de Valores Mobiliários. O trabalho da CVM arrastou-se por mais de um ano, mas concluiu que Eike não só sonegou informações aos acionistas da OGX como transmitiu notícias falsas pelo twitter. Ele teria agido com má fé ao esconder do mercado que a reserva de petróleo era muito inferior ao que fora divulgado. Além disso, de posse dessa informação privilegiada, desfez-se de papéis da petroleira, com uma explicação prosaica: precisava fazer caixa para honrar compromissos de curto prazo.

A CVM entendeu que Eike ludibriou os acionistas da OGX, que viram o investimento virar pó, e também pôs em xeque a direção da Bolsa de Valores de São Paulo, por não ter feito nada para evitar as irregularidades. A Bovespa, inexplicavelmente, deu como boas as operações efetuadas pelo controlador da OGX. Constatados os desvios, o colegiado da CVM agora está examinando as penas administrativas que aplicará. Além da multa pecuniária, o empresário poderá ficar impedido de exercer cargo de administrador em empresas de capital aberto. A investigação da CVM vai servir de subsídio ao trabalho da Polícia Federal e do Ministério Público. Se forem confirmados delitos na esfera penal, Eike Batista poderá ser condenado a mais de 20 anos de prisão. Se ainda está calmo, é melhor seguir à risca os conselhos de Sérgio Bermudes. Na alça de mira da PF, não é hora de se exibir. É melhor ficar calado.

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